domingo, novembro 30, 2008

vórtice



agora não me largues a mão. caio em espiral por todos os dias pintados numa cinzenta cortina de água. vórtice sem fim. a chuva da infância deixava poças nos campos. obrigava às galochas de borracha . e à raiva de ter que as usar. lembras-te? não, tu não estavas lá e nem sei se usaste galochas de borracha. e, se me lembro bem, também não estavas quando a água caía gelada e em mim já havia um calor púbere. ou serias tu com outro rosto. jovem, jovem, como se pode ser tão jovem? alguma vez foste tão jovem? e o vórtice que me arrasta. pequenos guarda-chuva, pequenas galochas com bonecos, beijos e sorrisos. também não eras tu. nunca foste ou foste sempre? agora já deixo que o vórtice me leve. não quero parar. ou talvez sim. algures em frente ao mar. lá fora a cortina de água adensa-se em tempestade. e nós isolados. nós? não tu. ficaríamos ali e um dia alguém nos encontraria. sonhos, sonhos. alguma vez sonhaste assim? deixo que a espiral me puxe para mais próximo do momento em que começou a ser o teu rosto. as múltiplas faces de ti. e a chuva em dias de natal próximo. com cânticos dos pedintes para lá da janela. e nós, finalmente nós. estou a chegar. sei que a espiral da memória me vai atirar para aqui onde a água bate nos vidros. agora não me largues a mão. de ti já vi todos os rostos escondidos por trás do véu de água.

28 comentários:

hfm disse...

do infinito de um olhar.

Entre "aspas" disse...

Os rostos escondidos esbatem-se nos véus infinitos de água como correntes grossas e salgadas.
Bjs Zita

Paula Raposo disse...

Tão maravilhosas as tuas palavras!! Fiquei absorvendo-as uma a uma. Beijos.

CNS disse...

Belíssimo véu de tempo.

um beijo

M. disse...

Especial este teu falar do vórtice humano.

Justine disse...

Empolgante texto, VdV! Fui arrastada pelo vórtice das palavras sábias, até uns salpicos de chuva e de memórias chegaram até mim...

Círculo Literário disse...

um texto atraente e bem escrito...ótima qualidade... Gostamos daqui!!
Abraço!!

VFS disse...

saudade,
tristeza,
amor,
desejo,
entrega.

que belo(s) vótice(s)!

Obrigado
Vicente

Rosangela Neri disse...

vórtice... véu...
Lindo, adoro suas palavras, me prendem neste blog!

Um cheirinho!

heretico disse...

"agora não me largues a mão. de ti já vi todos os rostos escondidos por trás do véu de água..."

belíssimo.rostos decifrados no tactear dos dedos...

grato.

beijos

nana disse...

...


fico assim sem palavras,

imersa

em espiral.

Vieira Calado disse...

Muito bem escrito, muito esbelto, este texto poético.

Um abraço

Vieira Calado disse...

Olá, de novo!

É só para dizer que já está marcado o lançamento de "Itinerário".

É no dia 13 de Dezembro, pelas 21 horas, no Auditório do Campo Grande, nº 56.

Falará sobre o livro e a obra do autor o poeta José Félix.

Brevemente, farei uma postagem sobre o tema.

Os meus cumprimentos

NAELA disse...

Imperiosoa este olhar que esconde por detras de mil veus a essencia do sentir!
Beijo terno

asvelasardemateaofim disse...

alguma vez sonhaste assim?

depois de te ler fiquei na incerteza.

simplesmente amei!

um bjo

dona tela disse...

O que me diz a este tempinho? Só para pinguins...

Um abraço respeitoso.

Nilson Barcelli disse...

Cara amiga, gostei imenso do teu texto.
Boa prosa e plena de belas imagens, muitas delas bem poéticas.
Beijinhos.

Um Momento disse...

Uau...
Perdi-me no tempo das palavras indo em tempo ao tempo de muitas memórias...
Belissimo

Um beijo Grande!

(*)

Roderick disse...

Parece o chegar do fim da vida!

Felinea disse...

me lembrou aquela letra do marcelo camelo:

"não solta da minha mão..."

lindo texto :)

beijos.

Maria Clarinda disse...

(...)deixo que a espiral me puxe para mais próximo do momento em que começou a ser o teu rosto. as múltiplas faces de ti. e a chuva em dias de natal próximo. com cânticos dos pedintes para lá da janela. e nós, finalmente nós. estou a chegar. sei que a espiral da memória me vai atirar para aqui onde a água bate nos vidros. agora não me largues a mão. de ti já vi todos os rostos escondidos por trás do véu de água.

Lindo, como só tu o sabes escrever...os teus posts tem a particularidade de baterem bem forte em mim...obrigada por isso...
Jinhos mil

Secreta disse...

Não me largues a mão ... pelo tempo que passou , pelo tempo que há-de vir...
Beijito.

Thiago disse...

Fiquei sem palavras. Gostei imenso do que li aqui!! Um beijo

Twlwyth disse...

Apetecem todas as gotas de água que nos aconchegam do lado de dentro do vidro.

É um prazer ler-te.

Beijo

Ad astra disse...

só quem ja assim viu, assim escreve

em espiral

innername disse...

enigmáticos alguns dos teus textos ...enigmas que ficam docemente submersos pelos rostos que já viste por detrás dos veús de chuva ou de qualquer outra doçura apontada sem indicador. Muito rico em receios e coragens que não revelam - a chuva podia ser responsável por esta melancolia mas cho que és tu a brincar ao esconde-esconde com os teus fantasmas

Oliver Pickwick disse...

Poesia das águas tormentosas. A hidráulica em versos raros. Ótimo trabalho, inclusive a ilustração.
Um beijo!

Stella Nijinsky disse...

Olá VV

Que texto tão lindo. Acabei de ler um poema maravilhoso nop blogue do Herético e agora tu...

Não eras tu...nunca foste ou foste sempre?

Se me largou a mão é porque não era ele...
...mas foi sempre ele aqui dentro, lá fora, onde quer que estivesse...
e peço-lhe mais uma vez, não me largues a mão...

O texto está espectacular!

Stella