domingo, abril 22, 2007

A casa




Aquela terra tem cheiro de marasmo, de gente parada em vidas sem chama. Talvez seja só a minha reacção, química negativa que eu tenho com o chão onde nasci. Talvez renegue raízes, porque reconheço minhas outras terras, não aquela.
Naquela terra o calor sufoca no Verão e, no Inverno, fustiga-nos o frio . Terras longe do mar, diz-se. Mas não existe essa lonjura toda.
Dizem-na bonita, os que a vêem de fora. Talvez, se não penetrarmos no seu interior, seja possível achá-la bonita. Tem um rio, talvez agora mais um fio de água. E há uma qualquer beleza especial nas terras que os rios atravessam. Talvez…
O meu caminho ali é sempre igual, entre a visita a quem decidiu ali repousar para sempre e a casa. A casa é como um cofre onde estão memórias guardadas. Memórias misturadas. Daquela bisavó que eu julgava que viveria para sempre. Uma doce memória, que arrasta outras não tão agradáveis. As minhas memórias de criança amada mas solitária. A querer entender os problemas dos adultos. As minhas memórias de adolescente que ali voltava, nas férias. E que revivia a realidade daquela rua estreita. Nas noites de Verão, da taberna do outro lado da rua, que é agora uma pastelaria, saíam os bêbados que iam desabafar desgraças no beco ao pé do quintal. Deitada, nas noites quentes em que o sono não chegava, ouvia-os invectivar a vida.
Por vezes, na casa ainda ecoa a memória de gargalhadas de crianças, abrindo as prendas do Pai Natal. Conseguiam até ouvir os sinos do trenó. Essas são as lembranças mágicas de um tempo feliz. Gostava de poder ficar só com essas e não ver, em cada canto da casa, outros dias, outras tristezas que me fazem ter para com ela um sentimento ambivalente.
É a casa, a única raiz que reconheço, mas está demasiado carregada de recordações. E de perdas. Como a vida.





[No Palavra puxa palavra o tema foi "Interior". Esta foto é da casa, a da minha infância e o texto foi escrito em Outubro 2005.]

35 comentários:

M. disse...

Marcas, é isso. Algumas fazendo nódoas negras.
Gostei muito.

Nilson Barcelli disse...

As raízes têm quase sempre duas faces, mas a sua recordação é inevitável.
Gostei da tua abordagem, mas tenho dificuldade em perceber a tua reacção negativa às tuas raízes.
Bom Domingo.
Beijos.

A Lei da Rolha disse...

Sinto muita nostalgia no teu texto, falas de recordações de infância...essa casa é muito importante para ti?
bjs

lena disse...

Vida de vidro, menina doce

"A casa" leva-nos à infância, às recordações que fizeram parte do nosso crescimento

raízes nossas, cheias de bons e maus momentos

nasci longe deste Portugal onde vivo. por mais que tente não consigo esquecer cada lugar da casa. está tudo muito presente. até as cores e os lugares onde eram guardados os objectos. as brincadeiras de rua, os sons do entardecer, o mar que se ouvia quase bater à porta

nostalgia, poderei eu dizer, mas quem me deram poder sempre voltar

lia-te e navegava nos meus sonhos, percorria a tua casa, nas tuas memórias e consegui imaginar a rua e a casa

um texto tão bem escrito, tão cheio de imagens, onde o caminho era o mesmo de outros caminhos, quando a vida nos deixa demasiadas recordações e "perdas"

é emocionaste ler-te, é sentir-te

abraço-te com uma grande ternura. beijinhos para ti muitos

lena

Anónimo disse...

Tempo de "recordações".. tem que haver uma altura de "conciliação" das "marcas"..elas emergem na nostalgia, desassossegam..essa conciliação/introspecção, dar-nos-á a serenidade..

um abraço

intruso

tufa tau disse...

também "tenho" uma casa assim...
quando lá entro, a minha garganta aperta-se quase até ao sufoco.
era a "minha casa"... o meu paraíso de 3 meses veraneiros e outros tantos dias ao longo do ano... no que ela se tornou para mim!

maria josé quintela disse...

não é possível desligarmo-nos dos cheiros da infância. de alguma forma, eles são também um pouco do alicerce que somos. a casa é talvez a memória mais antiga.e na casa estão os afectos.por isso nos toca tanto essa memória.

um beijo

Luisa disse...

Então o teu interior era um verdadeiro interior!!! Uma casa de infância fica sempre ligada às nossas recordações quer queiramos quer não. Gostei muito deste teu texto porque é isto que sinto em relação às casas onde vivi.

PintoRibeiro disse...

Recordações. E perdas. Se as recordações não são sempre o evocar das perdas. Mas gostei mesmo, muito.
Boa tarde e um bjinho,

as velas ardem ate ao fim disse...

Sei que sou lamechas e por isso enquanto lia as lagrimas correram me.Gostei muito.

bom dia isabel disse...

É tempo de recordar. E, afinal, recordar é viver.
Beijinhos e tem uma boa semana.

ninaowls disse...

Esta casa da tua infância, completamente impregnada de ambivalências. As saudades do futuro, onde não se podem adivinhar perdas de espécie alguma. Gosto de te ler, muito do que aqui dizes, sinto pelas paredes que me contiveram risos e lágrimas. Mas infância é o mais belo rio registado, porque depois das casas da minha infância, nenhuma casa foi suficiente para albergar as minhas tristezas ou conter as minhas alegrias. Eu sou caranguejo, transporto tudo isto na casa que levo às costas, chamada passado, presente e futuro. :))) E não sei deixar nada para trás. Alice, adoro ler-te ao som de Norah Jones. Still here. Na tua casa.

naturalissima disse...

E é de memórias, do passado, que somos o que somos hoje, projectendo-nos num futuro...
É saudável e muito importante agarrarmo-nos às nossas raízes... é lá onde está o nosso ser...

Uma boa semana para ti
Daniela

Rui Luís Lima disse...

olá vida de vidro!
a casa da nossa infância está sempre repleta de memórias, entrar nela é como viajar no tempo, como se fossemos uma criança-nocturna em busca dos pequenos prazeres da infância.
uma boa semana e bons filmes***
paula e rui lima

Stela disse...

A coisa boa das casas de familia eh que cada geracao tem memorias diferentes e em alguns casos sobrepostas. Eu recordo-me de ouvir distintamente os sinos do treno do pai natal (e ver um bocadinho de veludo vermelho a rasgar o ceu!!). Mas tb recordo as primeiras ferias passadas sem adultos com as minhas amigas, galhofa constante, banhos de mangueira e a sensacao de liberdade. Nem sabes o paraiso que aquela casa foi para nos, mesmo sendo a terra a seca que era. Outra memoria arrepiante, a de ver pela primeira vez o retrato da minha bisavo, que dava pelo mesmo nome que tu, e pensar que estava a olhar para ti, vestida com roupas antigas. Ai, se a casa pudesse falar... Que historias teria para contar... E se as contasses num livro? So uma ideia... Beijo

Kalinka disse...

ORA BEM...recordações do passado, umas boas e outras nem por isso...

E, hoje é o DIA MUNDIAL DO LIVRO.

Portugal é um país civilizado, mas ainda há seis anos tinha nove por cento de analfabetos, segundo os dados do estudo Consumidor 2006, que a Marktest divulgou a meio da semana passada, já são mais de três milhões os portugueses que lêem livros...

Ler continua a ser um comportamento minoritário, uma coisa que acontece a menos de metade da população continental com mais de 15 anos - mas cada vez menos, e isto merece palmas (a pretexto, também, desta efeméride: hoje é o Dia Mundial do Livro e finalmente os portugueses parecem saber o que isso é).

Eu adoro LER.
Beijos e abraços.

A.S. disse...

Por vezes precisamos regressar ao passado, visitar as nossas raízes! Belo texto!


Um beijo!

Maria Clarinda disse...

..."Essas são as lembranças mágicas de um tempo feliz. Gostava de poder ficar só com essas e não ver, em cada canto da casa, outros dias, outras tristezas que me fazem ter para com ela um sentimento ambivalente...."

O regresso ás n/raízes por vezes é assim , eu dir-te-ia...são sempre assim...

Adorei o post, a foto.
Jinhos mil

Escorpiana Explosiva disse...

é bom ter o q se lembra da infancia pois são saudades gostosas q um dia podemos contar para nossos filhos e netos.abraço.

collybry disse...

A casa de infancia, essa recordação que nos acompanha pela vida fora...quando à sofrimento nele paira,a reacção acontece...
Bjca

Unicus disse...

Exorcismo dos demónios? Faz bem. Depois emergem as boas memórias decerto.
Beijinho

herético disse...

o túnel da(s) memória(s). e gosto acridoce do tempo. escorrendo entre os dedos. "carpe diem"!...

gostei muito.

Pedro Branco disse...

Não me faças voltar à casa da minha infância. Já não existe...
Dentro de mim, dizes tu. Sim, claro. Dentro de mim. E depois? Que me adianta um rio de passado se a foz do futuro nunca chegará para tanto? De que valem as imagens, os sons, os cheiros, as arcas e roupas velhas, as geniais fantasias das crianças, as primas... se olho à minha volta e me pergunto de que valeu tanto? Sim. De que valeram as imagens se se fundiram num cenário perdido em mim? De que valeram os sons se hoje temos os carros, os computadores... e já não sabemos inventar assim? De que valem os cheiros no meio de tantos perfumes, vindos dos frascos de amostra ou do super mega tal que lava mais branco XPTO e protege a camada de ozono? De que valeram as arcas e as roupas velhas se hoje tudo se compra? As geniais fantasias das crianças será que existem no meio de tanta televisão? E as primas? Sim, as minhas primas. Perdemo-nos na vida. E a casa desapareceu.

O que será da minha casa quando os meus filhos forem grandes?

o alquimista disse...

Manhã submersa de palavras
Lava ardente nevoeiro
Uma nuvem que ameaça
Transfomar-se em aguaceiro...


A magia da atlântida dança no sul da ilha, saudade,
Transforma azul hortência
Em diamante de luz, que em meu peito arde


Mágico beijo

JPD disse...

É mesmo assim a nossa história familiar e pessoal: lugares, boas e más recordações onde se regressa inexoravelmente mesmo sem transpor fisicamente o espaço.
Bjs

bettips disse...

Não há crueza na memória da criança: é a sua realidade. Também não voltaria à "minha" infância mas iria à tua. A casa tem uma aura, eu disse-te. Muito bonita e agridoce a tua recordação. Bjinho

MARIA VALADAS disse...

Começei a ler...e as memórias da minha infância surgiram com uma nitidez que a emoção tocou mais alto!
Quando entro nela " casa", ainda sinto os mesmos odores,barulhos inerentes ao convívio familiar...e que faziam as minhas delicias!

Agora...reza o silêncio :((

Beijinhos

Maria

Nomundodalua disse...

"repleta de recordaçoes e perdas..como a vida.."

e oq seria da vida sem suas perdas, seus ganhos, suas lembranças, seus sonhos vividos, nao vivididos, perdidos..? o que seria? seria vida? :)

belo texto..tao rico..cheguei a me perder e me encontrar naquela casa..

"As minhas memórias de criança amada mas solitária"
:)

mas, que bom q amada!

dxo beijos!

Francieli Rebelatto disse...

Passado, nossa terra, e as raízes...Nostalgia, mas senão cultivadas as raízes secam ou não sobrevivem mal cuidadas...Sei bem, como é essa sensação, cá nesta terra, tb deixei uma para traz e dela poucas raízes são gurdadas...

Beijos, cuide-se e tenha uma ótima semana!!!

PintoRibeiro disse...

Bom dia, em casa, assim, se possível.
Bjinho.

brisa de palavras disse...

A nostalgia percorre-nos em forma de lugar, sonhos, lugares...o lugar onde brincávamos, o café tomado no mesmo sitio...ser chamado pelo nome...tanta coisa que enche o nosso livro das lembranças...
um abraço
brisa de palvras

Papoila Sonhadora disse...

Ola Vida de Vidro, fizeste-me visitar essa casa como se fosse minha! Gostei tanto, ate porque tenho uma situaçao actual muito identica. Pena as pessoas nao durarem para Sempre, quem morre nunca vai so, uma parte de nos morre, tambem...
Doce bjinho com o som do violino,
Papoila Sonhadora,

Opintas/Bernardo disse...

Oláááá.....entrei de turno.
Abraço.

lurainbow disse...

Texto de memorias . lembranças e saudade :)
Lindo adorei vou voltar

APC disse...

Há uma qualquer beleza especial nas terras que os rios atravessam, sim! E devo dizer-te que o afirmei há não muito tempo (quando propus, exactamente, imagens dos rios que atravessam as cidades, para tema dos novos selos dos CTT).
Gostei imenso de ter lido o texto que completa a fotografia que eu já havia visto no PPP. Há muito pouco tempo reacordou-se em mim a memória de uma velha casa da minha infância, também com um enorme corredor (não seria enorme para um adulto, mas para uma criança sim); e isso aconteceu a ligar o passado com o presente, numa qualquer coisa estranha que emaranhou afectos.
Gostei do texto, já disse. E, ainda que recordar seja viver, lembramos a vida com as perdas que são também o que a fazem, como dizes.
Um grande abraço e até amanhã, lá, para ver as nossas "cores"! :-)