domingo, julho 16, 2006

O túnel da esperança




- Naqueles dias, os homens olhavam, apreensivos, as nuvens negras no céu e cheiravam o ar que se tinha carregado de um cheiro nauseabundo. A cidade tinha-se tornado um lugar hostil e muitos eram os que falavam em partir. Outros diziam que, enquanto as aves ficassem, enquanto o seu voo se recortasse no cinzento que envolvia a terra, haveria esperança. Por isso, pelas aves que os faziam sonhar com o azul que já não conheciam, decidiram tentar sobreviver ali. Faziam turnos no Túnel da Esperança, à entrada da cidade, talvez para evitar uma ameaça que não conheciam. Tinha sido chamado assim noutros tempos em que o sol brilhava e aquela era uma cidade de gente que ali queria construir um futuro. Era tão alto que parecia tocar o céu e alguns ainda se recordavam da beleza do voo das aves iluminadas pela luz, quando entravam ou saíam da cidade.
Um dia, igual a todos os dias desde que as trevas tinham começado, um grito terrível acordou quem conseguia dormir. Vinha dos lados do túnel e todos se precipitaram para lá. Viram primeiro as aves que dançavam um louco bailado e batiam contra as paredes, na ânsia de escapar. Depois estranharam a escuridão que ali reinava, maior que a habitual. A saída do túnel estava tapada. Aves e homens, presos na cidade negra, sabiam que não havia voo que os salvasse.


Um homem ainda jovem olhou toda aquela gente a quem contava, mais uma vez, a mesma história. Que fazer com aquela multidão esfomeada e cheia de doenças? Disse, para si próprio, que não seria mais difícil convencê-los a viver do que deitar abaixo a parede do túnel. Trinta anos, pensou. Trinta anos de vida desde que encontrara o túnel fechado, quando regressava de uma correria de criança pelos montes à volta. Não queria pensar nisso, agora. O sol aparecia de vez em quando, fazendo todos fechar os olhos desabituados.

- Muitos morreram. Mas um dia, tão misteriosamente como se tinha fechado, o túnel abriu-se e as aves voltaram a voar, livres. Vocês sabem. E talvez possamos chamar à nova cidade que vamos construir, a Cidade da Esperança.





Foto by GC

6 comentários:

alfazema disse...

Desistir de viver ? Nunca. Ainda que não avistemos luz ao fundo do túnel não podemos deixar de lutar por ela. Um dia o sol voltará e com ele a esperança, a força de lutar pelos nossos objectivos, a vontade de cá continuar...
Um beijo

Teresa Durães disse...

Uma escrita muito a meu gosto.

(e cheia de aves, coicidência...)

tb disse...

sim, construamos a esperança num futuro mais risonho!
Lindo texto
Abraço

José Manuel Dias disse...

...abrem-se caminhos caminhando, como diz o poeta....
Parabéns pelo Blogue!

Ana Luar disse...

O vento eleva o caminho... para que não percamos a esperança! Ao fundo avistamos a Terra Prometida.
Quando?
Quando?

greentea disse...

sentados numa cadeira podemos abarcar o mundo inteiro mesmo sem falar com ninguém


como diz Bernardo Soares no Desassossego