quarta-feira, novembro 22, 2006

Escritos da chuva (II)




Pesadelo


A casa tinha fotos nas paredes e nos móveis. Fotos antigas como lembranças daqueles que já tinham partido ou de infâncias perdidas em dias que, hoje, ela via como felizes. Olhavam-na numa muda avaliação. Reprovação? Até as versões dela em molduras diversas pareciam estranhá-la. A chuva batia nos vidros e nem a sensação de conforto a impedia de se ver encerrada nas paredes da casa. A claustrofobia só era cortada pela luz que entrava pela nesga da porta que teimava em deixar aberta, como uma possibilidade de escapar.
Sabia que, lá fora, o ambiente lhe seria adverso. Enfrentar tempestades nunca tinha sido o seu lado forte. Mas os olhares das fotos não a largavam. E a chuva chamava-a, numa melopeia que a atraía. Sorriu a todos os que a observavam, mudos. Ali ou fora daquelas paredes, estariam sempre com ela. Correu para a porta que, lentamente, se ia fechando. Diluiu-se na luz que entrava e desapareceu. O estrondo do trovão abafou o barulho da porta que se fechou atrás dela.





Foto by sbdm zhu

29 comentários:

innername disse...

Também já tive essa sensação de estranheza quer pelos já "idos" encarcerados nas molduras que fazemos questão de manter "vivos" quer as de momentos deste vivência minha ou de outros...a claustrofobia surge como decisiva ou alternativa á tomada de um caminho. Ou asfixias ou sais. saíste, mesmo sabendo das adversidades. Só por isso já foste uma brava. Espero que tenhas vestido um anorak ou gabardina ;). os teus textos lêem-se sempre muito bem, mas melhor ainda nos dias de chuva. bj da Nina

Maria Clarinda disse...

....está tudo aqui nas entrelinhas!
Mais palavras, para quê!
Jinhos mil

melgadoporto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
melgadoporto disse...
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daniel sant'iago disse...

De regresso... à tua vida de vidro.
Matei as saudades e fugi ao meu pesadelo.
Um beijo.

sotavento disse...

Bem... por um lado, gosto muito de trovoadas, por outro de portas abertas... mas não as do passado, o passado é lá atrás!... :)

weg disse...

Que bem escrito!

:)

Bjs.

mac disse...

Está lindo. Sabe bem ouvir esta música nestes dias chuvosos, e olha que não apetece nada sair de casa, mas lá tem de ser.

conchita disse...

Olhar para o passado com nostalgia e enfrentar o futuro com coragem.
Bjs :)

mnemosyne disse...

Uma tela de palavras em que as representaçõe se amalgamam...Somos o resultado de todos os quadros que pintamos para nós mesmos e podemos sempre pintar novos quadros, por isso só enfrentando as adversidades é que podemos vencer os nossos medos :) Um beijo

FOTOESCRITA disse...

Gostei tanto! Tão bem descreves esta situação!

naturalissima disse...

Nas paredes BRANCAS da minha vida, voltei a colocar as fotografias envelhecidas, quadros outrora pintados por artistas que se cruzaram no meu caminho, cartas de amor, outras de despedida,... hoje escrevo histórias de sonhos para SER e VIVER o AMANHÃ!

Provavelmente esteja ausente desta "chuva" escrita, mas foi o que me apeteceu, partilhar contigo este meu sentir.

Um beijinho, amiga
Daniela

Marie disse...

E o sonho? :)

Teresa Durães disse...

gostei do que li, um texto bem ritmado!

boa tarde

Isabel disse...

So tenho uma palavra.
Amei.
Passo a vida assim ora enfrentando tempestades, que por acaso até são o meu forte, ou fechada na minha casca cheia de recordações principalmente daquela pequena parte da infancia que foi feliz. Não tenho claustrofobia, aninho-me na casca forrada de lembranças e descanço das tempestades.

Amei.
Vi-me.
Foi bom.

Isabel

mfc disse...

Um dia temos que sair da concha que nos envolve e protege... e partir!
Esse é o sentido da vida.

Bandida disse...

belissimo texto o teu. assim se encontra a continuidade do espelho. nunca se perde a consciência do passado. por muito que digamos que sim. mas, ele há coisas que nunca farão parte dele, porque nunca existiram...




abraço!
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frog disse...

Curiosamente, revejo-me plenamente neste texto... em cada uma das palavras!...


Um beijo...

JPD disse...

Medo a suplantar o dito inerente à claustrofobia?
:)

Cris disse...

Os pesadelos por vezes são motores para a mudança, para fugir deles, encontramos por vezes o caminho certo... ou não. Gostei muito do teu escrito.

Bjos e bom Wk

Cris

Licínia Quitério disse...

Uns dias Tudo Bem, outros Pesadelo...
Faces diferentes da mesma moeda. E a chuva a inspirar-te. Ainda bem. Para nós que te lemos.

rouxinol de Bernardim disse...

Muito bonito e ... a música também...

Rita Contreiras disse...

Há momentos em que a melhor saída é mesmo diluir-se na luz e buscar novos rumos.Grande abraço e ótimo final de semana.

Nilson Barcelli disse...

Mas que pesadelo, bem escrito, diga-se.
O final é inusitado e inteligente. Gostei.
Bom fim-de-semana.
Beijos.

bettips disse...

Abrir a porta e sair, contudo levar o apoio das boas memórias! Abç

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Muito bem, fico a aguardar o desenvolvimento :)
Sabe bem ler-te :)


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......d88888bd888b.
.....d8888888888888B.
.....888888P`Y8888P.
.....Y888888.....( , \_.
....,_Y88(.................)....*Passo para te ler...
....Y888888b.......__\..
.....“8“888P........(_.... para saber como estás...
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...........~;~~\~..... * Para te deixar um beijo
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..........|___|.|............ e desejo bom fim de semana!!!!
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«`“•.¸.♥ Nadir ♥ ¸.•“´»
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Anónimo disse...

Rara sensibilidade emotiva, dando vida à saudade..
..talvez, só a musica, suavizando as convicções, ditadas pela consciência..mas, se acreditando noutra dimensão,dilui-se o pesar da tristeza da saudade..um outro sentido, nasce..perene..

fim.de.semana diferente

intruso

DIAFRAGMA disse...

Gostei muito deste par.

melgadoporto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.