domingo, julho 29, 2012

Cegos de emoções





Como cegos de emoções
deixamos as palavras perderem-se
caídas nos interstícios do real
arrastadas nas margens da vida.
Véus tapam-nos os olhos abertos
todos os poemas perderam
o seu dizer primordial
não vemos a essência dos outros
que à nossa frente se rasgam.
Lentamente perdemos o fôlego
não vemos, não ouvimos
não respiramos.

terça-feira, julho 24, 2012

O balanço do vento




Somos folhas nascidas nas árvores
Aos raios primeiros do sol
Saboreamos no balanço do vento
O apelo profundo da terra      
Bebemos a doçura das manhãs
Gloriosamente ébrios de luz
A vida penetra-nos mais uma vez
Noviços eternos na arte de renascer

domingo, julho 15, 2012

O barco verde






Um dia alguém perguntaria como tinham conseguido viver naquele tempo. Uma era de perdas, desencantos, de revoltas reprimidas, caladas na garganta e não gritadas no vento, de pesadelos sobre o dia seguinte. De alguma forma, tentava pôr a navegar o barco verde que lhe ficara parado nos olhos. Não encontrava o caminho dos rios, muito menos a rota infindável do mar. Mas provavelmente isso não iria interessar nada aos que, mais tarde, tentariam fazer a história daqueles dias. Nos escritos em que ficariam registados os acontecimentos daquela época, que importância podia ter o barco verde que se desfazia a pouco e pouco e nunca mais sentiria o fluxo das águas a empurrá-lo? E, quando a história se fizesse, ela e o barco estariam longe, nas terras para lá da terra. Nesses lugares que não conhecia, estranhas lonjuras envoltas em nevoeiros de dúvida. Mas voltando à arte de sobreviver naquela época, talvez todos guardassem o seu barco. De cores diferentes, com diferentes ânsias de atingir a água. Seria o desejo comum de navegar que lhes mantinha a esperança dum amanhã diferente? Não seriam todos barcos vagueando, à procura da corrente favorável? Pensava, mas não diria nada aos pretensos historiadores, que o que os fazia viver por aqueles dias era a incerteza. Meia certeza, afinal. Meia certeza de que, um dia, a água estaria perto. E, dos olhos de todos, partiriam os barcos. Para onde? Essa era outra história para alguém contar.

quinta-feira, junho 21, 2012

O vestido vermelho





Agora consegue lembrar-se. Era um vestido vermelho. Não uma simples saia. Se a memória era fiel, era até mais que um vestido. Uma bandeira. Uma afirmação. Envolvia-lhe o corpo e gritava a sua alma ao vento daquele tempo. Havia quem não compreendesse. “Rapariga, não tens outro vestido? Lavas esse e voltas a vesti-lo. Que coisa… “ . E o riso dela era uma cascata vermelha, vermelha. Mais tarde usaria  azuis escuros, castanhos, cinzentos, até xadrez sóbrio. Mais tarde… Tinha tempo para as cores certinhas. As que lhe esconderiam os impulsos tão vermelhos de corpo e alma. Mas naquele tempo, o sol era uma fogueira e as horas dançavam estranhas danças. Tudo era um desafio. Dançava, dançava. Desbravava caminhos e ria, como ria… naquele tempo. Hoje tem infinitas saudades do vestido (ou seria saia?) vermelho. Ou de quem o vestia como bandeira. Sente-a estranha, outra pessoa ainda sem o molde que a vida lhe faria. Ainda seria capaz de vestir aquele vermelho? Já não existe, tinha-se desfeito da roupa numa voragem qualquer de um tempo em que deixara de ter significado. Mas, se existisse? Fechou os olhos e a saia (o vestido?) esvoaçou dentro dela. E o riso, primeiro tímido, depois afirmativo mesmo sem as cascatas de outrora, ecoou na sala. Dançou rodopiando a saia de outrora. Algures, lá bem escondido no fundo de si, o vermelho ainda era um desafio.