sexta-feira, agosto 22, 2008

A dúvida



Tudo começou numa conversa com o vizinho do 4º esquerdo. Quando se encontravam no café, em frente à bica a escaldar, costumavam falar sobre os problemas da actualidade, sobretudo do país. Dependendo do humor do vizinho, um bocado variável, por vezes vinha à baila o futebol. O homem era adepto de um clube em maré de azar e ele compreendia que esse assunto fosse, frequentemente, votado ao ostracismo. Era assim o nosso herói. Compreensivo e amante da concórdia, o que chegava a ser confundido com falta de “espinha vertical”. Eu, que o conheci razoavelmente, sempre achei que o casulo em que parecia encolher-se era a sua protecção contra discussões e mal-entendidos. Era uma daquelas almas que estão sempre bem colocadas num movimento pacifista, entendido como aqueles que começam por praticar a paz.
A tal conversa de que ia falar, quando comecei a divagar, deu-se numa bela noite estrelada e transformou a vida do nosso homem num inferno. Acabavam de sair do café, discutindo o estado calamitoso do país, e depararam-se com um luar imenso que conseguia inundar de luz irreal todo o bairro. Até parecia um bairro bonito, pensou o meu amigo, perdendo o olhar num leve vapor de neblina que pairava no horizonte. E, virando-se para o vizinho, num rompante de que ainda hoje se arrepende:

“Sabe, precisávamos era de uma luz assim para conseguirmos gostar desta terra.”

O vizinho, homem culto mas de pés assentes no chão e pouco dado a divagações, olhou-o estupefacto:

“Homem, você é um nefelibata!”

O nosso herói engoliu em seco. Como responder? Como se responde quando não sabemos o que nos estão a chamar e, ainda por cima, detestamos discussões?

“Talvez, talvez. Até amanhã, vizinho”

Durante dias não dormiu e quase não teve apetite. Não sabia se tinha sido insultado e estava tão convencido que a palavra nem existia que não se lembrou de consultar o dicionário. Mas, quando me contou a sua enorme dúvida, fui com ele folhear o que encontrei mais à mão. E lá estava, entre outras coisas:

nefelibata

“indivíduo que, animado de um ideal, não atende aos factos da vida real, positiva”

Benditos sejam os dicionários! Este pôs um sorriso enorme no rosto torturado do meu amigo.



[Texto publicado no 5º jogo das 12 palavras, a saber: casulo, conversa, inferno, inundar, luar, movimento, nefelibata, ostracismo, país, vapor, variável, vertical. Beijos, abraços e bom fim de semana!]


12 comentários:

innername disse...

era benfiquista, o peace maker. Gostei desta dúvida e pelo sim pelo não, convém ter sempre à mão um portátil, pra ir imediatamente à wikipédia. Nunca sabemos quando alguém nos chama um nome cabeludo e ficar "à nora" pode provocar azedumes, o que entre vizinhos do mesmo prédio não dá jeito nenhum.
Quanto à época das luzes, não sei se resolvia a questão. Os iluministas eram quase todos nefelibatas, não eram?
Bom fds Alice e tira mais pics. Beijo do norte

M. disse...

Não entrei neste jogo, mas por acaso também não sabia o que era "nefelibata". Ficou óptimo o teu texto, uma vez mais. E se desta vez as palavras pareciam não jogar umas com as outras!...

mac disse...

Quando este jogo se deu, também não sabia o significado dessa palavra. Acho que esta é uma das grandes virtudes dos nossos jogos: aumentar o nosso vocabulário.

jawaa disse...

Lembrou-me o «inócuo» do conto de Vergílio Ferreira...
Beijinho

Presença disse...

Gosto muito do teu entrelaçar das palavras...
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Moral da historia: Ter sempre um dicionario por perto.
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bjo de cristal

bettips disse...

Um dicionário (ou uma lista de páginas sem corantes, amarelo-ovo-verdadeiro) de sentimentos pode ajudar-nos a mudar um pouco o mundo. Assim o jogo abrangente de tantos estados. Já o tinha achado belo e aqui sublinha-se a força das palavras!
Bjinho

Justine disse...

Cheio de humor, e fluido como um fio de água cristalina, o teu texto:))

JPD disse...

Olá Vida de Vidro

Acho que te saíste bem.

A dificuldade destes jogos reside na disciplina imposta pela utilização das palavras.

(Não sendo, embora às vezes seja acusado disso, teria de abandonar o meu nefelibatismo para poder escrever um texto com essas regras...)

Bj

greentea disse...

se calhar devia haver mais desses nefelibatas ...
quem me dera sê-lo!

maria josé quintela disse...

és especialmente dotada para este tipo de jogos!



gostei muito.

(e aprendi o que quer dizer nefelibata. :))


um beijo.

Antunes Ferreira disse...

LISBOA - PORTUGAL

Olá! Sei o que é a Administração Pública. Estive no MinFin durante cinco anos. Fui para lá como Assessor para a CS do falecido Sousa Franco, meu Amigo desde as carteiras do Liceu Camões até à Faculdade de Direito. E, depois, com o Pina Moura.

Por mal dos meus pecados, nunca devia ter lá posto as patas. Mas - pus, quase só pus...

Cheguei a este blogue através de outros que costumo visitar e neles postar comentários. Cheguei, vi e… gostei. Está bem feito, está comunicativo, está agradável, está bonito – e está bem escrito. Esta é uma deformação profissional de um jornalista e dizem que escritor a caminho dos 67…, mas que continua bem-disposto, alegre, piadista, gozão, e – vivo.

Só uma anotaçãozinha: Durante 16 anos trabalhei no Diário de Notícias, o mais importante de Portugal, onde cheguei a Chefe da Redacção – sem motivo justificativo… pelo menos que eu desse com isso… E acabo de publicar – vejam lá para o que me deu a «provecta» idade… - o me(a)u primeiro livro de ficção «Morte na Picada», contos da guerra colonial em Angola (1966/68) em que, bem contra vontade, infelizmente participei como oficial miliciano.

Muito prazer me darás se quiseres visitar o meu blogue e nele deixar comentários. E enviar-me colaboração. Basta um imeile / imilio (criações minhas e preciosas…) e já está. E se o quiseres divulgar a Amiga(o)s, ainda melhor. Tanto o blogue, como o imeile, tá? Muito obrigado

www.travessadoferreira.blogspot.com
ferreihenrique@gmail.com

Estou a implementar e desenvolver o projecto que tenho para o meu www.travessadoferreira.blogspot.com e que é conferir ao meu/vosso/NOSSO blogue a característica de PONTO DE ENCONTRO entre os Países fraternalmente ligados – Portugal e Brasil. E outros PALOP e etc…
Se me enviares o teu IMEILE, poderei enviar-te «coisas» que ache interessantes. Se, porém, não as quiseres, diz-me que eu paro logo. Sou muito bem-mandado (a minha mulher que o diga…) e muito obediente (cf. parênteses anterior). Abrações e queijinhos, convenientemente repartidos e distribuídos

– Desculpa por este comentário ser tão comprido e chato. Como a espada do D. Afonso Henriques…
- Já conheces o me(a)u «Morte na Picada» que acima menciono? Há quem diga que é muito bom. E até que é o melhor que se escreveu em Portugal sobre o tema. Dizem… Obviamente que não sou eu a dizê-lo… Só faltava… E também há quem tenha escrito que é SANGUE & SEXO… Malandrecos… Pelo sim, pelo não, compra-o.
Depois de o leres, se, por singular acaso, tiveres gostado dele, terás de comprar muitíssimos mais exemplares. São excelentes prendas de aniversários, casamentos, divórcios, baptizados, e datas como Natais, Carnavais, Anos Novos, Páscoas, Pentecostes, vinte e cincos de Abris, cincos de Outubro, dezes de Junhos. Até para funerais. Oferecer o «Morte» na morte fica bem em qualquer velório que se preze. E, além disso, recomenda-o, publicita-o, propagandeia-o, impinge-o aos Amigos, conhecidos, desconhecidos & outros, SARL. Os euros estão tão raros e... caros...
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A editora da obra é a Via Occidentalis (occidentalis@netcabo.pt) cujo site é www.via-occidentalis.blogs.sapo.pt. Neste blogue podem ser consultados mais dados sobre o livro, cujo preço de capa é € 14,70. ATENÇÃO: Pode ser comprado pela Internet.
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NOTA IMPORTANTE: Este texto de apreciação e informação é similar em todos os casos em que o utilizo. Digo isto, para quem não surjam dúvidas ou suspeitas sobre a repetição em diferentes blogues. E para que ninguém se sinta ludibriado – ou ofendido… Há feitios que… Mas, sublinho, apenas o uso quando o entendo, isto é, quando gosto mesmo dos que visito. Nos outros onde também vou, se não gosto, saio sem comentários. Há muitos mais. Aqui na terrinha diz-se que «se não gostas, põe na beirinha do prato…»

Fa menor disse...

Um brilhante texto, amiga!
Neste jogo têm surgido algumas palavras que fazer recorrer ao dicionário... e assim se aprende!

Beijinhos