quarta-feira, abril 18, 2007

Poema de mim...




Ah, se soubesse fazer um poema
De métrica incerta
Sem rima, sem tema
Palavras sentidas, sabidas
Rentes à terra vermelha da alma
Poema cristal comigo espelhada
Um jorro de versos no dia real
Grito de vida em letras rasgadas
Ah, se soubesse
Gravar nas palavras aquilo que sinto
Dizer o que calo e, calando, minto
No verbo encarnar horas que vivi
Das mãos abertas faria brotar
Um poema único de mim para ti.


Foto by Marina Jerkovic

domingo, abril 15, 2007

Da cor dos malmequeres





Sabem de que cor são os malmequeres? Brancos, amarelos, as duas coisas? Respostas prosaicas. Os malmequeres são cor de primavera. Esta é uma resposta poética.
Também a água não é bem água. Talvez seja um fio de prata ou um líquido caudal. Ou qualquer outra coisa. As cores não são bem as que vemos, mas as de alguma improvável paleta. E sobretudo a dor não é dor. Chamemos-lhe o que quisermos, mas não lhe chamemos dor. Nem tristeza, nem solidão. Nem sequer a tão desejada felicidade. Recorramos a todas as figuras de estilo. Sublimemos. Sobretudo, sublimemos. Façamos um enorme silêncio sobre a vida real, deixemos a poesia dizer do mundo inventado onde, ao de leve, só ao de leve, pairam os nossos sentimentos.
Será para isto que serve a poesia? E será que a poesia tem que servir para alguma coisa? Não para mim, não hoje, sobretudo.
Mas nem sei como vim parar aqui. Hoje eu só queria saber de que cor são realmente os malmequeres. Os verdadeiros que existem nos campos e se sentem nas mãos quando os colhemos. Nos campos reais, da terra real onde cresce a verdadeira vida.




Fevereiro 2006

quinta-feira, abril 12, 2007

O espectáculo continua



Óleo sobre tela de Júlia Calçada


Trazia a alma dorida nas pontas dos pés. Em cada músculo o sangue latejava, o coração batia, como se o único sentimento conhecido fosse o cansaço. Cada movimento, cada decisão rasgava o cetim, rasgava-lhe a pele. Queria parar ali, não ouvir nem mais um compasso da música e atirar para longe as sapatilhas, admitir que aquele espectáculo não era o seu.
Os acordes entraram-lhe no ouvido e tudo no seu corpo se rendeu, se submeteu. A dor retirou-se lá para bem fundo, para onde já nem a conseguia sentir. Ergueu-se no cetim sujo das sapatilhas de tantos momentos inesquecíveis e viu-as brilhar. Os pés seguiram a alma que dançava ao som da música envolvente, sedutora. Deixou-se ir, voou, viveu o momento daquela dança. O espectáculo tinha que continuar.




[Para responder ao desafio da Maria, que agradeço, sensibilizada]

terça-feira, abril 10, 2007

Esta cidade





A cidade mostra-se aos meus olhos que dela já só viam uma lembrança longínqua. O ecoar de passos antigos nas velhas pontes do Sena acorda os dias de outrora, os passeios encantados em que tudo era novo, diferente, belo. Hoje esta é a cidade íntima, (re)conhecida, quase familiar. Feliz coincidência, a de estar aqui quando a vida rodopia à minha volta sem que saiba onde e quando vai parar. Ou será que as coincidências são forçadas por nós? Que importa? Esta é uma cidade para ser feliz. Para amar cada minuto de cada hora. Para abraçar a luz inigualável. E, por agora, isso basta.




6 de Abril 2007