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terça-feira, fevereiro 17, 2009

Místico



by zabaa

A infinitude do silêncio colava-se-lhe ao corpo. Caminhava lento, passando as mãos nas formas que o sincelo conseguia urdir nas árvores. A casa era mais um eremitério onde a única preciosidade vinha da luz que entrava a qualquer hora. Havia nele uma aura de misticismo que, no princípio, os outros veneravam. Tocavam-lhe como se lhes pudesse dar o pão da vida. Ou como se dele jorrasse unguento para as dores da alma. Comprovado que não fazia milagres, passaram a olhá-lo com comiseração. Por fim, devia ofendê-los pela diferença, tal a aleivosia com que, em cada dia, o humilhavam. Quando partiu, as árvores choraram, em cada jóia de gelo derretida.


[Brincando com as palavras. Texto do 8º Jogo das 12 palavras]

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Obrigada, JPD, pelo prémio e pela presença amiga.

domingo, novembro 23, 2008

As tuas mãos



by Xavier Baglin

E sempre as tuas mãos. Sacrário de silêncio onde celebrava o misticismo do amor. Unguento sobre a pele. Pelo toque me davas o pão do teu corpo. A água que o sincelo da minha alma gerava, matava-me a sede. Naquele eremitério feito de horas isoladas procurávamos a infinitude improvável. Precisávamos urdir uma rede fina, preciosidade de protecção contra a auto comiseração e a aleivosia dos outros. Talvez a malha fosse larga demais. Por ela fugiu tudo o que ritualizava o amor e, por fim, até as tuas mãos.


[Este é um dos textos que escrevi para o 8º Jogo das 12 palavras. Publico-o aqui, hoje, também como uma forma de celebrar o lançamento, no sábado, do Livro "22 Olhares sobre 12 palavras". Podem ver a reportagem aqui, aqui e aqui (obrigada, Nina.)]

sexta-feira, agosto 22, 2008

A dúvida



Tudo começou numa conversa com o vizinho do 4º esquerdo. Quando se encontravam no café, em frente à bica a escaldar, costumavam falar sobre os problemas da actualidade, sobretudo do país. Dependendo do humor do vizinho, um bocado variável, por vezes vinha à baila o futebol. O homem era adepto de um clube em maré de azar e ele compreendia que esse assunto fosse, frequentemente, votado ao ostracismo. Era assim o nosso herói. Compreensivo e amante da concórdia, o que chegava a ser confundido com falta de “espinha vertical”. Eu, que o conheci razoavelmente, sempre achei que o casulo em que parecia encolher-se era a sua protecção contra discussões e mal-entendidos. Era uma daquelas almas que estão sempre bem colocadas num movimento pacifista, entendido como aqueles que começam por praticar a paz.
A tal conversa de que ia falar, quando comecei a divagar, deu-se numa bela noite estrelada e transformou a vida do nosso homem num inferno. Acabavam de sair do café, discutindo o estado calamitoso do país, e depararam-se com um luar imenso que conseguia inundar de luz irreal todo o bairro. Até parecia um bairro bonito, pensou o meu amigo, perdendo o olhar num leve vapor de neblina que pairava no horizonte. E, virando-se para o vizinho, num rompante de que ainda hoje se arrepende:

“Sabe, precisávamos era de uma luz assim para conseguirmos gostar desta terra.”

O vizinho, homem culto mas de pés assentes no chão e pouco dado a divagações, olhou-o estupefacto:

“Homem, você é um nefelibata!”

O nosso herói engoliu em seco. Como responder? Como se responde quando não sabemos o que nos estão a chamar e, ainda por cima, detestamos discussões?

“Talvez, talvez. Até amanhã, vizinho”

Durante dias não dormiu e quase não teve apetite. Não sabia se tinha sido insultado e estava tão convencido que a palavra nem existia que não se lembrou de consultar o dicionário. Mas, quando me contou a sua enorme dúvida, fui com ele folhear o que encontrei mais à mão. E lá estava, entre outras coisas:

nefelibata

“indivíduo que, animado de um ideal, não atende aos factos da vida real, positiva”

Benditos sejam os dicionários! Este pôs um sorriso enorme no rosto torturado do meu amigo.



[Texto publicado no 5º jogo das 12 palavras, a saber: casulo, conversa, inferno, inundar, luar, movimento, nefelibata, ostracismo, país, vapor, variável, vertical. Beijos, abraços e bom fim de semana!]


quarta-feira, agosto 06, 2008

talvez




talvez a água tenha escorrido
pelo teu corpo
e falado da loucura
das minhas mãos de cal.
quem sabe no cotovelo do rio
viste emergir do lodo
os meus braços raízes
estendidos em sobressalto
como rosácea de oferenda
a algum deus implacável.
talvez a água te tenha dito
do vasculhar na memória de ti
vendaval sem método ou limite
no leito onde corre a minha vida.


[Onde nos levam as palavras... Este foi o texto publicado a 24 de Junho no 4º Jogo das 12 Palavras que eram: água, cal, corpo, cotovelo, emergir, lodo, loucura, método, raízes, rosácea, sobressalto, vasculhar. Boas férias, fim de semana prolongado, o que quer que seja! Voltarei um dia destes.]

sexta-feira, julho 25, 2008

A morte da infância




Lembrava-se daquela manhã marcada na lonjura da infância. Desejava afastar a recordação mas sabia que voltaria, recorrente como a sensação de vulnerabilidade que lhe deixava.
Ainda sentia o pisar suave da tapeçaria da sala dos avós. Parecia abafar a vida, afastar a possibilidade de um grito. Um grito, sequer. Sentia a morte rondar por ali. Não era a morte a ausência da vida? Tão criança era, e já lhe sentia o arrepio. Mas naquela manhã era pior. Quis correr para o quarto do avô. Homem rude, nunca lhe tinha demonstrado grande afecto, mas nem por isso deixava de ser o seu melhor conselheiro. Uma espécie de exponente da sua formação, alguém que lhe abria as portas do mundo dos adultos, confuso e traumático. Ou talvez apenas causador de pena. Dava-lhe segurança avistar a silhueta já curvada, em contra-luz na janela do quarto.
Não era assim naquela manhã de orvalho gelado. Um nó na garganta não o deixava respirar, como se ali fosse ficar em permanente obstrução. Entendeu, sem que ninguém lhe dissesse, que o vulto do avô seria, daí em diante, apenas uma lembrança. E o seu choro silencioso ecoou como o grito que nunca lhe tinham permitido dar, naquela sala.



[Este foi o meu texto para o 3º Jogo das 12 Palavras. As palavras escolhidas foram: afastar, conselheiro, criança, exponente, manhã, morte, obstrução, orvalho, pena, silhueta, tapeçaria, vulnerabilidade. Bom fim de semana para todos e dêem uns minutos de atenção ao que está anunciado ali na barra lateral, fruto do sonho do grupo que tem dado vida a este desafio... ]

sábado, julho 05, 2008

A primeira viagem




Pôs o pé no primeiro degrau da carruagem, olhando a plataforma na esperança de que alguém tivesse vindo despedir-se. Aquela era a sua primeira viagem para lá da cidadezinha de província onde vivia. Fantasiara que alguém chegaria à estação a correr com uma caixa de chocolate e flores nos braços. Como nos filmes. Mas quem viria? Na sua vida ignorada de empregada de uma pequena empresa, tinha um ou dois conhecidos a quem nem podia chamar amigos. E vivia só. Da família, tinha a ideia ténue da existência de uns longínquos parentes. Quem viria, na verdade?
Era a primeira licença que tirava, mais por não saber o que fazer do que por zelo no trabalho. Mas, num dia em que o sol brilhava e um sorriso desconhecido a tinha acariciado, decidira aventurar-se. Aqueles quinze dias ao pé do mar talvez a tirassem da sombra em que sempre tinha vivido.
Entrou na carruagem, abriu a janela e aspirou o aroma envolvente dum belo dia de Verão. À medida que o comboio ganhava velocidade na linha, algo lhe dizia que ia iniciar uma nova vida. Fechou os olhos e sonhou com águas cálidas e um desconhecido cujo rosto não tinha ainda contornos. Não era sempre assim nos filmes?




[Este é o texto do 2º Jogo das 12 palavras. Para este jogo, foram escolhidas as palavras: caixa, chocolate, degrau, envolvente, flores, licença, linha, sol, sombra, ténue, viagem, vida. Bom fim de semana!]

terça-feira, junho 24, 2008

A Senhora do farol




Contavam, na povoação, que uma mulher vagueava, em noites de tempestade, entre o velho farol e o mar imenso. A sua silhueta destacava-se no horizonte, sempre que a luz azul iluminava a noite. Diziam que vivia longe, num distanciamento propositado da população daquela vila e carregava com ela uma dor amortecida pelo tempo, mas que lhe retirara o gosto de estar com os outros. Sempre só, naquele jeito de comungar sentimentos apenas com as águas que lhe escutavam as palavras. Quando se revolviam e batiam nas rochas com um ruído avassalador, só ela parecia fazer a fusão entre o mar e o céu. Encostada ao enorme rochedo erodido pela fúria dos elementos, dizia o povo que era a ponte entre as gentes daquela terra e alguma divindade vingadora e que só ela tinha o poder de acalmar a tempestade. Por isso a chamavam de Senhora do Farol e lhe espiavam os passos, sempre que no ar ecoava o ruído atemorizador que conheciam das memórias sem tempo certo.




[As palavras para o jogo eram: amortecida, avassalador, azul, céu, comungar, distanciamento, erodido, farol, fusão, imenso, mar, tempestade]