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domingo, julho 29, 2012

Cegos de emoções





Como cegos de emoções
deixamos as palavras perderem-se
caídas nos interstícios do real
arrastadas nas margens da vida.
Véus tapam-nos os olhos abertos
todos os poemas perderam
o seu dizer primordial
não vemos a essência dos outros
que à nossa frente se rasgam.
Lentamente perdemos o fôlego
não vemos, não ouvimos
não respiramos.

terça-feira, julho 24, 2012

O balanço do vento




Somos folhas nascidas nas árvores
Aos raios primeiros do sol
Saboreamos no balanço do vento
O apelo profundo da terra      
Bebemos a doçura das manhãs
Gloriosamente ébrios de luz
A vida penetra-nos mais uma vez
Noviços eternos na arte de renascer

quinta-feira, maio 31, 2012

A página do poema



No toque leve dos dedos
Abro a página do poema
Deixado na beira do tempo
Em busca do sentido perdido
Entre linhas de papel antigo
De laços nossos, só palavras soltas
À margem de qualquer realidade
E o som envelhecido de um riso
De mim, o poema que murchou
Na poeira infinita de cada dia

Passo a página alongando no espaço
A carícia dos dedos sobre as palavras
E a luz do sonho entre as linhas
Alumia uma trémula mensagem
Um sopro ligeiro de esperança

quinta-feira, abril 05, 2012

Páscoa



Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Miguel Torga


[Boa Páscoa a quem por aqui passar!]

terça-feira, janeiro 24, 2012

Sonho sem tempo




Se a terra se imobilizasse eu saberia
Se hoje o movimento se invertesse
Soaria algures um alerta de estranheza
No caos informe do secreto pensamento
E o latejo do perigo nos músculos em defesa
Mas nada parece ter mudado desde ontem
Ou dos tempos em que os risos se soltavam
A terra não parou, o tempo não recuou
Os ventos falharam tempestades improváveis
Mas nos meus dias entrou uma espera atenta
Um sopro estranho um alarme sem razão
Aguardo um não sei quê de bom ou mau
Uma antiga história, um final sem princípio
Um sonho sem tempo tornado pesadelo

sábado, outubro 01, 2011

silêncio



o silêncio
um pouco de nada no dia que passa
uma aragem gelada no calor da tarde
um frio suor nas noites de insónia.
nada existe
para lá da certeza exacta da distância
que em nós interiormente se afirma
no amargo sopro do desencanto.
nem a espera
a vida não tem margem que a pare
e as horas arrastam-se e correm
num mesmo tempo simultâneo.
só a esperança
que entra pelas frestas do desejo
de viver.

foto: Dionísio Leitão

publicado em Mulher dos 50 aos 60 em Agosto 2005

quarta-feira, setembro 07, 2011

Bagagem

foto: luggage by Dariusz Klimczak



Nada existe para além de mim
Na angústia ambivalente das tardes
O pôr do sol é só cenário antigo
Um pó dourado sobre a realidade
Desvio os olhos do longo prado azul
Que a verdade revela manchado de lama
Não quero nada para além de mim
Prenhe que sou de perdidas ilusões
Só o terreno arrepio das manhãs
E o vento inquieto em cada fim de tarde

quinta-feira, julho 28, 2011

O ombro da noite




by Artur Gusakov


Encosto a cabeça no ombro da noite
Exposta ao consolo cálido da brisa
Ficaram colados na tarde escaldante
Os cantos estridentes das cigarras
Por dentro da paz azul do crepúsculo
Observo a luta da harmonia perfeita
Com o espelho convexo da realidade

domingo, julho 17, 2011

quando a noite

quando a noite alastra pelos montes
largo a alma nas fragas sobre o rio
bebo nas pedras as gotas que restam
da última tempestade

e devagar regresso aos campos rasos
onde nem o vento agita a terra
e a perene imobilidade do ar
é bálsamo inquieto

resta a dúvida do que me preenche
a noite, o rio e o cheiro da tempestade
ou a doce melancolia onde o vento se aquieta

sábado, julho 02, 2011

a sombra


vejo-me na sombra das varandas
que se esconde do sol do fim de tarde
a sombra regular na parede verde
iludindo o avançar do crepúsculo
que breve se funde no negro da noite
vejo-me no declinar das horas de luz
no lado de lá de um perverso espelho
onde olho os meandros de mim
ali na sombra sobre a parede verde.

quinta-feira, junho 30, 2011

uma cinza trémula


é só um nome
já não é vida
dor de pele rasgada
um nome absorto
esquecido pelos cantos
escuros da memória
é só um nome
mais nada
uma pequena brecha
de dor intermitente
é só um nome
mas vida não
uma cinza trémula
de chamas antigas
e agora um nome
escondido na estrada
escura linha de outros dias
um nome, mais nada...

sábado, junho 04, 2011

Reflexão com foto e bandeira


by Jacob Lopes


Dizer amor a este país
por querer.
Sem caravelas
ou talvez perseguindo-as
na dimensão do sonho.
Dar a mão, o braço, a alma
levantar o corpo do negrume
e moldar um futuro
possível.
Dizer saudade em positivo
de ideias
de ideais realizados
sonhos concretos
sonhados no dia a dia.
Pensar em mim este país
olhar de frente
a neblina de pesadelos
que disfarçamos com risos
de ecos amargos.
Evocar o sol e o vento
de vontades em comunhão
e seguir, talvez.

Dizer amor a este país
ou desistir.


[Escrevi isto em 2005. Hoje não diria nada diferente.]

segunda-feira, março 21, 2011

Pelo poema


by Sam Taylor

Pelo poema fui onda deslizante
folha de árvore nos braços do vento
barco à toa nas margens do rio
Pelo poema vivi sonhos improváveis
vi-me só em mil espelhos quebrados
fui idêntica a mim e inventei-me
No poema me perdi e me encontrei
e na pele das palavras me envolvi
cobrindo a nudez que queria expor
ilusão de sentidos meros enganos
sobre as almas que de mim nasceram
nas eternas asas etéreas do poema.



[Hoje, Dia Mundial da Poesia]

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

para lá do Inverno

by Eskil Olsen


porque vês o inverno
na janela espelho em que te olhas
o mundo encolhe nas paredes frias
e a espada de gelo te penetra o peito
julgas que o sol é privilégio de outros
que descuidados ainda não passaram
as brancas montanhas para lá do tempo

mas o sol reside na ponta dos dedos
e arde intenso no toque da pele
afaga-te os olhos no sopro do vento
para lá do espelho real em que te vês
o sol é o eterno desejo de renascer.

terça-feira, dezembro 07, 2010

espelho


quem me olha no espelho
tem na sombra velada do sorriso
o disfarce inábil de marcas antigas
o olhar em que o brilho se esconde
renega a identidade equívoca do rosto
a imagem muda nas margens do tempo
outros espelhos mentem de outra forma
com a convicção dos amantes infiéis

sexta-feira, novembro 12, 2010

A esperança eterna da paz

by J. Pedro Martins


De que valem dores angústias
Negras tempestades momento a momento
Não escorre sangue da terra
Nem choram as árvores no silvo do vento

São nossas as frágeis mágoas
Que não alteram a indiferença do deserto
Mas a esperança eterna da paz
Só em nós reside, algures neste todo incerto

sábado, novembro 06, 2010

por vezes...


by Virginia Ateh
por vezes o dia amanhece lúcido
no colo da dor que se esconde
talvez apenas a urgência de fugir
para uma luz improvável
cálida alegria e íntimo fulgor
em mim a paz sem laços desfeitos
simples quietude do dia que nasce.

quinta-feira, outubro 28, 2010

pela essência



by Bruno Abreu

sei-te não pelos dias mas pelo sorriso
essa curvatura íntima dos lábios
tímidos trocistas no limite da húmida sede
sei-te não pelo tempo mas pelos olhos
jovens pássaros atrevidos na bruma da ternura
caminhantes sem rumo nas rugas do rosto
sei-te pela essência que procurei tocar
adivinhando momentos espalhados no tempo
pelos muitos dias de hoje
e eternas esperanças de amanhã.

terça-feira, outubro 12, 2010

hoje não


by Slava Beilin

hoje não amor
os tons da terra mudam cada dia
nada permanece neste outono de incerteza
por isso hoje não
não fales do que não posso entender
há trilhos sem fim visível
labirintos sem fio que me guie
hoje não sim talvez
...e o medo
infinito arrepio de me perder

sexta-feira, agosto 06, 2010

abrigos destruídos

Já secaram os oásis
deste lado do deserto
até o gelo arde em brasa
labareda em noite escura
queimadura à flor da pele
calcinando as madrugadas.

Flor caída em solo árido
na margem de ocultos rios
porquê procurar a sombra
dos abrigos destruídos?