domingo, janeiro 30, 2011
Nevoeiro
terça-feira, novembro 04, 2008
Ana à janela

by Dominique Dupont & Christian Duprez
quarta-feira, dezembro 06, 2006
O palácio

Certa noite, ele chegou com o rosto iluminado. Por onde teria andado? Já não fazia a si própria muitas perguntas, no cansaço daquela vida sem tecto. Pela rua se tinham encontrado e na rua viviam, se àquilo se podia chamar “viver”. Iam fazendo companhia um ao outro, tentando amenizar a dureza da fome, do frio, da incerteza do dia seguinte. Ela já não pedia mais nada, perdida toda a esperança que tinha tido, nalgum existir longínquo, vaga lembrança que escorraçava por tornar o “agora” ainda mais difícil.
Mas, naquela noite, ele sorria e até quis fazer amor. Há quanto tempo? No início, escondiam-se nos prédios em ruínas, nos vãos de escada desertos. Agora… o desejo tinha morrido nela e, pouco a pouco, ele desinteressara-se. Teria outras por aí… já isso não lhe importava.
Naquela noite, acumulou pedacinhos de felicidade, farrapos dos quais também já tinha desistido. Quis então saber porquê.
- Queres viver num palácio?
Riu-se. Aquele homem não tinha emenda, vivia perdido em sonhos. Mas ele pegou-lhe na mão e levou-a por um estranho caminho que, na noite de luar, lhe dava a impressão de abandonar o mundo real. Ouviu a voz dele.
- Chegámos. Vê!
O palácio ali estava. Abandonado, quase uma ruína. Mas belo. Podia imaginar jardins onde agora crescia a erva. Nas escadarias ladeadas de azulejos, viu-se princesa, como nos sonhos de outrora.
Ninguém por ali andava. Os companheiros da rua ali não entravam. Rindo e dançando ao som de uma orquestra imaginária, ela disse que sim. Viveriam ali. Enquanto fosse possível. Enquanto houvesse espaço para o sonho.
segunda-feira, novembro 06, 2006
Pés descalços

Tratou cuidadosamente de tudo.
Escolheu o mais belo vestido guardado há tanto tempo no armário.
Pensou no penteado que lhe ficava melhor.
Ensaiou o toque de pintura que lhe realçaria o rosto.
Queria sentir-se bela.
Decidiu deixar os pés descalços.
Queria sentir-se livre.
Caminhou à beira-mar. Não sabia para onde ir.
Tinha cuidado de tudo menos do destino final. Ficava em aberto…
Sabia que tinha que ser longe da sombra protectora.
Olhou para trás. A mancha vermelha e calorosa chamava-a, num apelo confortável.
O mar estava ali perto e os pés enterravam-se na areia, num jeito quase voluptuoso.
Lentamente, seguiu. Passos hesitantes, pouco a pouco mais seguros.
Quando olhou novamente, a mancha vermelha era só um ponto perdido na lonjura.
Foto by Kenvin Pinardy
sábado, setembro 16, 2006
O vestido azul

Demorou a preparar-se. Banho, cremes, maquilhagem. Ia olhando o vestido azul pousado na cama. Não resistira. Chamava por ela na montra da loja. Olhou-o de todos os ângulos, pegou-lhe com cuidado e vestiu-o. Perfeito no seu corpo. Como se uma costureira o tivesse feito por medida.
Olhou-se no espelho. Gastara quase todo o dinheiro que tinha mas estava pronta para a sua grande noite. Sentou-se e esperou. Ainda não era a hora certa. Esperou mais e mais. O relógio, por fim, marcou a meia-noite.
Pôs a música a tocar, foi buscar o champanhe e dançou, dançou, dançou. Abriu prendas que comprara e fez a festa até adormecer, linda no seu vestido azul.
Estava só naquele quarto minúsculo, numa cidade estranha. Tinha vinte anos.
Foto by Beliz Kocak
segunda-feira, agosto 28, 2006
O homem que inventou o mar

"O mar cheirava a uma vela inchada pelo vento, onde a água, o sal e um sol frio se uniam"
Patrick Süskind, O Perfume
O homem ouvira falar do mar. Um daqueles viajantes que carregam consigo sonhos em forma de palavras, tinha dito das ondas, do azul, da imensidão de água. Falara dos peixes que o habitavam, contara lendas de espantar e dissera que os homens dos mundos à beira mar os pescavam, horas e horas sentados nos locais onde a água vinha tocar a terra.
Aquele homem vivia sozinho, num país árido, quase deserto. Tinha envelhecido a sonhar com o mar. Queria apanhar um peixe, ser da água, vivo, brilhante. Queria que as ondas o molhassem, lhe refrescassem o corpo, queria dar-se àquela água que, tinha a certeza, o esperava. A sua cana de pesca era um pau fino que todos os dias afagava, imaginando o belo peixe que nela dançaria. Até talvez o desse depois ao mar, onde afinal pertencia.
Um dia partiu. Caminhou na secura desértica sem que encontrasse nem vestígios de água. Olhou a planície à sua frente e desejou a frescura do mar que o viajante lhe descrevera. E avançou, com uma certeza profunda.
Contam, naquele país longínquo, que ninguém mais viu o homem. Na planície, encontraram o pau que sempre o acompanhava. Na sua ponta, já seco do sol tórrido, estava um peixe que alguns reconheceram das histórias que tinham ouvido.
Foto by Maciej Knapa
segunda-feira, agosto 21, 2006
Guardador da luz cega

Naqueles dias, parecia aos seres da floresta que não havia luz no céu. Na verdade, aquele disco do céu que fazia as folhas brilhar e os aquecia, só tinha aparecido cinco minutos em cada dia. Era pouco e a angústia dos dias cinzentos começava a abater-se sobre os habitantes minúsculos do reino verde, aqueles que os homens não vêem quando os seus pés pisam pesadamente as folhas secas.
Reuniram-se os filósofos, os poetas e os cientistas. Os artistas assistiram, sem conseguir largar o que estavam a criar. De vez em quando, diziam de como a sua obra transmitia melancolia. Sem o disco dourado, tinham perdido a alegria que espalhavam em sons, em cores, em formas. Era preciso fazer alguma coisa. Se conseguissem guardar a luz daqueles cinco minutos…
Em plena reunião, um dos mais jovens entrou gritando que tinha encontrado um objecto estranho e muito grande. Parecia ter as cores do disco do céu. Talvez um dos que chegam de fora (chamavam assim aos homens para quem tudo ali era estranho) o tivesse deixado. Talvez o próprio disco do céu o tivesse enviado. Como podiam saber?
O objecto era belo e tinha uma cor quente semelhante à do disco dourado. Estava orientado para o local de onde a luz e o calor costumavam vir durante cinco minutos. Esperaram e, à hora habitual, os raios atravessaram aquela cor intensa e pareceu-lhes que toda a superfície do objecto brilhava e ficava mais quente. O mesmo aconteceu no dia seguinte e no outro e no outro…
Chamaram disco da terra àquela superfície que parecia ficar cada vez mais quente e cor de ouro alaranjada, como se toda a luz do disco do céu ali se concentrasse. Fizeram pequenos abrigos debaixo daquele disco quente. Nos cem dias em que o sol só brilhou cinco minutos a alegria não fugiu da floresta, enquanto as árvores e os arbustos bebiam toda a água necessária e se preparavam para o novo reinado do disco do céu.
Foto by naturalíssima (obrigada, Daniela, por criares imagens que são uma inspiração)
quinta-feira, agosto 10, 2006
No país da guerra

O menino do país da guerra acordou com o estranho silêncio que pairava sobre a cidade. A mãe teria ido procurar algo que comer. Tinha que a esperar ali. Naqueles dias, sair das ruínas onde vivia era perigoso. Tudo era perigoso. Nunca mais tinha visto os seus amigos de brincadeiras. Perguntava à mãe por eles e ela só o olhava com os olhos muito abertos e secos. Não a via chorar há tanto tempo… E quase tinha saudades dos dias em que chorava por mais uma partida do pai ou porque tudo era difícil demais na vida que levavam. Agora, já nem se lembrava do rosto do pai.
Espreitou e não viu mais que escombros. Já não conseguia orientar-se na cidade. Todos os pontos de referência tinham desaparecido. Só ruínas e corpos que ninguém reclamava. Reparou naqueles objectos de metal espalhados. O pai tinha-lhe dito o que eram e como funcionavam.
Tinha fome, tinha muita fome. Não podia chamar, gritar, sabia que não devia atrair atenções. Chorava baixinho, com aquele aperto no coração que lhe acontecia sempre que não via a mãe. As lágrimas silenciosas correram quando começou a percorrer as ruas desertas, quando entrou no que restava das casas, quando, esquecido do perigo, gritou pela mãe. A voz encontrou eco nem ele sabia onde. Mas ninguém respondeu. Nem a mãe, nem os moribundos, nem os que costumavam procurar por toda a cidade um pedaço de pão. Nem os tanques, nem as bombas.
Sentou-se no chão e, em silêncio, chorou todas as lágrimas que tinha. E, de olhos e coração seco, esperou. Apanhou um dos objectos de metal e agarrou-o, na mão pequenina. Eles voltariam.
Foto by verboomz
[Não aprovo vinganças. Entendo desesperos e, sobretudo, anseio pela paz sem destruição da dignidade de ninguém.]
terça-feira, julho 25, 2006
Mundos estanques

Há mundos que não se tocam. Não se podem tocar, porque existe algo que os torna letais um para o outro.
O homem vivia nos dois mundos. Na verdade, ele era a charneira única entre eles. E assim se manteria pela eternidade possível, se conseguisse respeitar os habitantes daqueles mundos e a sua curiosidade não se sobrepusesse ao perigo.
Diz quem me contou esta história que ele não foi cuidadoso. Digo eu que, de tanto ouvir falar disto, tenho a sensação de o conhecer, que não resistiu à tentação de, de alguma forma, misturar os dois mundos. Abriu uma janela de comunicação, suficientemente segura, pensava ele. Sabemos todos que não há janelas seguras, nem com todas as grades e sistemas de alarme possíveis. De uma forma insidiosa, os habitantes de um lado e doutro espreitaram-se, admiraram-se e ressentiram-se ao perceber que o homem não pertencia inteiramente a nenhum deles. E aquele veneno que era a razão pela qual os mundos não se podiam tocar, começou a espalhar-se. Lentamente, foi afectando os habitantes do mundo que tinha menos defesas. O outro seguir-se-ia. Para se salvarem, procuraram refúgio. Do mundo de lá e do homem. Espantado, magoado talvez, o homem recolheu-se no mundo que sobreviveu. Não conta a história se destruiu a janela. Nem se o coração do homem se quebrou de desgosto. Sabe-se, no entanto, que um dos mundos ficou deserto para sempre ( sempre, é até onde conseguimos saber…).
Foto by Ruip
domingo, julho 23, 2006
A rapariga dos balões

Na terra, todos conheciam a rapariga dos balões. Ninguém sabia, no entanto, dizer de onde tinha vindo, quem eram os pais, o que fazia ali. Ninguém lhe conhecia um nome. Nem ela própria. Vivia numa velha casa abandonada, subsistia do que lhe davam e não tinha amigos ou família. Andava sempre agarrada àquele molho de balões multicolor. Na casa escura e suja, só os balões criavam a magia dum sorriso, em quem entrava.
As crianças da terra corriam atrás dela, pedindo um balão que ela negava, como se fosse a sua única riqueza, talvez o único sonho realizado. Já lhos tinham roubado mas, sem que alguém conseguisse explicar, num instante aquela nuvem de cor soltou-se das mãos que o agarravam e voou, ficando a pairar junto à porta da velha casa. Pertenciam-lhe, dizia o povo. Ninguém mais questionou essa verdade, mas todos se interrogavam o que significava.
À medida que crescia, os rapazes da terra começaram a rondar-lhe a porta, tentando decifrar todo o mistério que ela carregava consigo, como se uma noite de sexo lhes desvendasse aquilo que ninguém tinha entendido até aí. Corria-os à pedrada, como um animal acossado. Não era esse o sonho que carregavam os balões. E, sabe-se lá porquê, ganhou fama de louca, insultada sempre que palmilhava as ruas íngremes e se esgueirava pelos becos escuros.
Desapareceu, numa noite de chuva em que todos se agasalhavam em casa. Sem rasto. Na porta de cada menino, ficou pendurado um balão e, na velha casa, um bilhete escrito em papel amarrotado:
- Não há lugar para mim na terra que escolhi. Volto para onde os balões não são necessários.
Foto by anIa bystrowska
domingo, julho 16, 2006
O túnel da esperança
- Naqueles dias, os homens olhavam, apreensivos, as nuvens negras no céu e cheiravam o ar que se tinha carregado de um cheiro nauseabundo. A cidade tinha-se tornado um lugar hostil e muitos eram os que falavam em partir. Outros diziam que, enquanto as aves ficassem, enquanto o seu voo se recortasse no cinzento que envolvia a terra, haveria esperança. Por isso, pelas aves que os faziam sonhar com o azul que já não conheciam, decidiram tentar sobreviver ali. Faziam turnos no Túnel da Esperança, à entrada da cidade, talvez para evitar uma ameaça que não conheciam. Tinha sido chamado assim noutros tempos em que o sol brilhava e aquela era uma cidade de gente que ali queria construir um futuro. Era tão alto que parecia tocar o céu e alguns ainda se recordavam da beleza do voo das aves iluminadas pela luz, quando entravam ou saíam da cidade.
Um dia, igual a todos os dias desde que as trevas tinham começado, um grito terrível acordou quem conseguia dormir. Vinha dos lados do túnel e todos se precipitaram para lá. Viram primeiro as aves que dançavam um louco bailado e batiam contra as paredes, na ânsia de escapar. Depois estranharam a escuridão que ali reinava, maior que a habitual. A saída do túnel estava tapada. Aves e homens, presos na cidade negra, sabiam que não havia voo que os salvasse.
Um homem ainda jovem olhou toda aquela gente a quem contava, mais uma vez, a mesma história. Que fazer com aquela multidão esfomeada e cheia de doenças? Disse, para si próprio, que não seria mais difícil convencê-los a viver do que deitar abaixo a parede do túnel. Trinta anos, pensou. Trinta anos de vida desde que encontrara o túnel fechado, quando regressava de uma correria de criança pelos montes à volta. Não queria pensar nisso, agora. O sol aparecia de vez em quando, fazendo todos fechar os olhos desabituados.
- Muitos morreram. Mas um dia, tão misteriosamente como se tinha fechado, o túnel abriu-se e as aves voltaram a voar, livres. Vocês sabem. E talvez possamos chamar à nova cidade que vamos construir, a Cidade da Esperança.
Foto by GC
