
Na terra, todos conheciam a rapariga dos balões. Ninguém sabia, no entanto, dizer de onde tinha vindo, quem eram os pais, o que fazia ali. Ninguém lhe conhecia um nome. Nem ela própria. Vivia numa velha casa abandonada, subsistia do que lhe davam e não tinha amigos ou família. Andava sempre agarrada àquele molho de balões multicolor. Na casa escura e suja, só os balões criavam a magia dum sorriso, em quem entrava.
As crianças da terra corriam atrás dela, pedindo um balão que ela negava, como se fosse a sua única riqueza, talvez o único sonho realizado. Já lhos tinham roubado mas, sem que alguém conseguisse explicar, num instante aquela nuvem de cor soltou-se das mãos que o agarravam e voou, ficando a pairar junto à porta da velha casa. Pertenciam-lhe, dizia o povo. Ninguém mais questionou essa verdade, mas todos se interrogavam o que significava.
À medida que crescia, os rapazes da terra começaram a rondar-lhe a porta, tentando decifrar todo o mistério que ela carregava consigo, como se uma noite de sexo lhes desvendasse aquilo que ninguém tinha entendido até aí. Corria-os à pedrada, como um animal acossado. Não era esse o sonho que carregavam os balões. E, sabe-se lá porquê, ganhou fama de louca, insultada sempre que palmilhava as ruas íngremes e se esgueirava pelos becos escuros.
Desapareceu, numa noite de chuva em que todos se agasalhavam em casa. Sem rasto. Na porta de cada menino, ficou pendurado um balão e, na velha casa, um bilhete escrito em papel amarrotado:
- Não há lugar para mim na terra que escolhi. Volto para onde os balões não são necessários.
Foto by anIa bystrowska
