quinta-feira, fevereiro 23, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
Sonho sem tempo
Se a terra se imobilizasse eu saberia
Se hoje o movimento se invertesse
Soaria algures um alerta de estranheza
No caos informe do secreto pensamento
E o latejo do perigo nos músculos em defesa
Mas nada parece ter mudado desde ontem
Ou dos tempos em que os risos se soltavam
A terra não parou, o tempo não recuou
Os ventos falharam tempestades improváveis
Mas nos meus dias entrou uma espera atenta
Um sopro estranho um alarme sem razão
Aguardo um não sei quê de bom ou mau
Uma antiga história, um final sem princípio
Um sonho sem tempo tornado pesadelo
sexta-feira, janeiro 20, 2012
sons de um dia
Filomena ouvia o som daquele dia.
Extravagante, talvez, aquela mania de ouvir cada dia de forma diferente. Não
exactamente música, por vezes só ruído, murmúrio ou grito estridente. Aquele
era um dia de sussurros que saíam dos cantos das paredes. Entravam nela como
portadores de paz, misturados com suaves raios de sol. Deu-se a esse conforto
sem reservas e deixou fugir os ruídos traumatizantes de dias anteriores. Lá
viria o tempo em
que voltariam. Filomena já tinha vivido dias suficientes para
saber que nem o conforto interior nem a angústia duram sempre. Os sons dos seus
dias poderiam ser já uma sinfonia que ainda não conseguira compor. Faltava-lhe
a transição harmónica necessária para transformar ruídos desconexos em música fluente. Sobretudo ,
subsistiria sempre nela a dúvida de conseguir sentir a vida dessa forma. Que
importava isso, afinal? Aquele era um dia de reconfortante suavidade. Por
agora, era suficiente.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Natal antigo
Estamos a três dias do Natal e dou comigo a lembrar os
tempos em que os presépios tinham musgo apanhado pelos campos, pratas ou vidros
que imitavam água, toscas figuras de barro pintado. E tudo fazia sentido, numa
composição virada para uma criança recém-nascida, esperança e paz deste mundo.
Não havia Pai Natal nem árvore. Todos os preparativos eram
feitos na noite de 24. Grandes alguidares onde se batiam os sonhos e, no lume,
a canja da galinha criada no quintal. Bem antes de deitar a chaminé era limpa,
enfeitada e os sapatos brilhantes ficavam ali à espera. Na verdade, a espera
era nossa, das crianças. O que estaria lá de manhã? Doces, um brinquedo talvez?
Um livro, sempre, a partir da idade de os saber compreender.
Porque me lembrei deste Natal frio do menino Jesus, sem
grandes enfeites, sem grandes brilhos, feito com os parcos recursos disponíveis?
Provavelmente só para me esquecer das angústias do Natal deste ano. Que vou
pedir ao Pai Natal ou ao menino Jesus ou apenas à estrela que brilhe no céu
nessa noite? Não há milagre que me faça sair da realidade das perdas, das dores
acumuladas, das angústias de um ano sem esperança, sabendo que o próximo será
talvez pior. Talvez por isso tenho que voltar à simplicidade da infância,
aquela época em que o Natal era humilde como sempre devia ter sido. A festa do
nascimento de uma criança numa manjedoura. Só isso. E a paz tranquila desses
tempos. Será esse o meu pedido de Natal, o meu voto de Ano Novo. A
possibilidade de viver em paz comigo e com os outros. Será possível pedir algo
mais este ano?
[Desejo a quem ainda aqui passa um Bom Natal e que 2012 passe
rápido e indolor.]
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