sexta-feira, janeiro 20, 2012

sons de um dia




Filomena ouvia o som daquele dia. Extravagante, talvez, aquela mania de ouvir cada dia de forma diferente. Não exactamente música, por vezes só ruído, murmúrio ou grito estridente. Aquele era um dia de sussurros que saíam dos cantos das paredes. Entravam nela como portadores de paz, misturados com suaves raios de sol. Deu-se a esse conforto sem reservas e deixou fugir os ruídos traumatizantes de dias anteriores. Lá viria o tempo em que voltariam. Filomena já tinha vivido dias suficientes para saber que nem o conforto interior nem a angústia duram sempre. Os sons dos seus dias poderiam ser já uma sinfonia que ainda não conseguira compor. Faltava-lhe a transição harmónica necessária para transformar ruídos desconexos em música fluente. Sobretudo, subsistiria sempre nela a dúvida de conseguir sentir a vida dessa forma. Que importava isso, afinal? Aquele era um dia de reconfortante suavidade. Por agora, era suficiente.   

terça-feira, dezembro 20, 2011

Natal antigo




Estamos a três dias do Natal e dou comigo a lembrar os tempos em que os presépios tinham musgo apanhado pelos campos, pratas ou vidros que imitavam água, toscas figuras de barro pintado. E tudo fazia sentido, numa composição virada para uma criança recém-nascida, esperança e paz deste mundo.
Não havia Pai Natal nem árvore. Todos os preparativos eram feitos na noite de 24. Grandes alguidares onde se batiam os sonhos e, no lume, a canja da galinha criada no quintal. Bem antes de deitar a chaminé era limpa, enfeitada e os sapatos brilhantes ficavam ali à espera. Na verdade, a espera era nossa, das crianças. O que estaria lá de manhã? Doces, um brinquedo talvez? Um livro, sempre, a partir da idade de os saber compreender.
Porque me lembrei deste Natal frio do menino Jesus, sem grandes enfeites, sem grandes brilhos, feito com os parcos recursos disponíveis? Provavelmente só para me esquecer das angústias do Natal deste ano. Que vou pedir ao Pai Natal ou ao menino Jesus ou apenas à estrela que brilhe no céu nessa noite? Não há milagre que me faça sair da realidade das perdas, das dores acumuladas, das angústias de um ano sem esperança, sabendo que o próximo será talvez pior. Talvez por isso tenho que voltar à simplicidade da infância, aquela época em que o Natal era humilde como sempre devia ter sido. A festa do nascimento de uma criança numa manjedoura. Só isso. E a paz tranquila desses tempos. Será esse o meu pedido de Natal, o meu voto de Ano Novo. A possibilidade de viver em paz comigo e com os outros. Será possível pedir algo mais este ano?
[Desejo a quem ainda aqui passa um Bom Natal e que 2012 passe rápido e indolor.]

sexta-feira, outubro 28, 2011

Suave rio




Hoje precisava de inspiração e as palavras fogem-me escorregadias. Nada fica no ecran, nada do que queria dizer e deixar marcado. Exactamente hoje. Deixo apenas aquilo que o cansaço não mata, o que está tão dentro de mim que escorre dos dedos, mesmo involuntariamente. Hoje é apenas o dia de deixar transbordar o suave rio da ternura.

domingo, outubro 23, 2011

Ciclo infinito



Voltou a chuva. Anotou o acontecimento no pequeno caderno. Aquele hábito de ligar os ritmos da natureza aos seus, pareceria talvez estranho. Mas ninguém, a não ser ela, lia o caderno. E também nunca lhe causara preocupação que a considerassem estranha. A chuva aninhava-a em si própria numa semi-apatia. Deixando que em si chovesse também. Sinal de renovação, diriam os antigos. Aqueles que iam desaparecendo da sua vida. Em nome deles, deixou que a chuva interior fizesse o seu trabalho. Tudo renasceria na natureza. Como sempre, naquele ciclo infinito que é o tempo. Também nela a vida seguiria o seu caminho, passando outra vez dos dias de sol àqueles em que parece chover no mundo inteiro. Enroscou-se um pouco mais, escutando a água que batia nos vidros. Dentro de si, acarinhou a semente da alegria.
No caderno, ficou só uma nota : “Hoje voltou a chover. Espero que as flores me nasçam nos olhos, lá para a Primavera. Segundo o calendário, já não falta muito.”