Filomena ouvia o som daquele dia.
Extravagante, talvez, aquela mania de ouvir cada dia de forma diferente. Não
exactamente música, por vezes só ruído, murmúrio ou grito estridente. Aquele
era um dia de sussurros que saíam dos cantos das paredes. Entravam nela como
portadores de paz, misturados com suaves raios de sol. Deu-se a esse conforto
sem reservas e deixou fugir os ruídos traumatizantes de dias anteriores. Lá
viria o tempo em
que voltariam. Filomena já tinha vivido dias suficientes para
saber que nem o conforto interior nem a angústia duram sempre. Os sons dos seus
dias poderiam ser já uma sinfonia que ainda não conseguira compor. Faltava-lhe
a transição harmónica necessária para transformar ruídos desconexos em música fluente. Sobretudo ,
subsistiria sempre nela a dúvida de conseguir sentir a vida dessa forma. Que
importava isso, afinal? Aquele era um dia de reconfortante suavidade. Por
agora, era suficiente.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
terça-feira, dezembro 20, 2011
Natal antigo
Estamos a três dias do Natal e dou comigo a lembrar os
tempos em que os presépios tinham musgo apanhado pelos campos, pratas ou vidros
que imitavam água, toscas figuras de barro pintado. E tudo fazia sentido, numa
composição virada para uma criança recém-nascida, esperança e paz deste mundo.
Não havia Pai Natal nem árvore. Todos os preparativos eram
feitos na noite de 24. Grandes alguidares onde se batiam os sonhos e, no lume,
a canja da galinha criada no quintal. Bem antes de deitar a chaminé era limpa,
enfeitada e os sapatos brilhantes ficavam ali à espera. Na verdade, a espera
era nossa, das crianças. O que estaria lá de manhã? Doces, um brinquedo talvez?
Um livro, sempre, a partir da idade de os saber compreender.
Porque me lembrei deste Natal frio do menino Jesus, sem
grandes enfeites, sem grandes brilhos, feito com os parcos recursos disponíveis?
Provavelmente só para me esquecer das angústias do Natal deste ano. Que vou
pedir ao Pai Natal ou ao menino Jesus ou apenas à estrela que brilhe no céu
nessa noite? Não há milagre que me faça sair da realidade das perdas, das dores
acumuladas, das angústias de um ano sem esperança, sabendo que o próximo será
talvez pior. Talvez por isso tenho que voltar à simplicidade da infância,
aquela época em que o Natal era humilde como sempre devia ter sido. A festa do
nascimento de uma criança numa manjedoura. Só isso. E a paz tranquila desses
tempos. Será esse o meu pedido de Natal, o meu voto de Ano Novo. A
possibilidade de viver em paz comigo e com os outros. Será possível pedir algo
mais este ano?
[Desejo a quem ainda aqui passa um Bom Natal e que 2012 passe
rápido e indolor.]
sexta-feira, outubro 28, 2011
Suave rio
Hoje precisava de inspiração e as
palavras fogem-me escorregadias. Nada fica no ecran, nada do que
queria dizer e deixar marcado. Exactamente hoje. Deixo apenas aquilo
que o cansaço não mata, o que está tão dentro de mim que escorre
dos dedos, mesmo involuntariamente. Hoje é apenas o dia de deixar
transbordar o suave rio da ternura.
domingo, outubro 23, 2011
Ciclo infinito
Voltou a chuva. Anotou o acontecimento no pequeno caderno. Aquele hábito de ligar os ritmos da natureza aos seus, pareceria talvez estranho. Mas ninguém, a não ser ela, lia o caderno. E também nunca lhe causara preocupação que a considerassem estranha. A chuva aninhava-a em si própria numa semi-apatia. Deixando que em si chovesse também. Sinal de renovação, diriam os antigos. Aqueles que iam desaparecendo da sua vida. Em nome deles, deixou que a chuva interior fizesse o seu trabalho. Tudo renasceria na natureza. Como sempre, naquele ciclo infinito que é o tempo. Também nela a vida seguiria o seu caminho, passando outra vez dos dias de sol àqueles em que parece chover no mundo inteiro. Enroscou-se um pouco mais, escutando a água que batia nos vidros. Dentro de si, acarinhou a semente da alegria.
No caderno, ficou só uma nota : “Hoje voltou a chover. Espero que as flores me nasçam nos olhos, lá para a Primavera. Segundo o calendário, já não falta muito.”
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