domingo, outubro 23, 2011

Ciclo infinito



Voltou a chuva. Anotou o acontecimento no pequeno caderno. Aquele hábito de ligar os ritmos da natureza aos seus, pareceria talvez estranho. Mas ninguém, a não ser ela, lia o caderno. E também nunca lhe causara preocupação que a considerassem estranha. A chuva aninhava-a em si própria numa semi-apatia. Deixando que em si chovesse também. Sinal de renovação, diriam os antigos. Aqueles que iam desaparecendo da sua vida. Em nome deles, deixou que a chuva interior fizesse o seu trabalho. Tudo renasceria na natureza. Como sempre, naquele ciclo infinito que é o tempo. Também nela a vida seguiria o seu caminho, passando outra vez dos dias de sol àqueles em que parece chover no mundo inteiro. Enroscou-se um pouco mais, escutando a água que batia nos vidros. Dentro de si, acarinhou a semente da alegria.
No caderno, ficou só uma nota : “Hoje voltou a chover. Espero que as flores me nasçam nos olhos, lá para a Primavera. Segundo o calendário, já não falta muito.”

sábado, outubro 01, 2011

silêncio



o silêncio
um pouco de nada no dia que passa
uma aragem gelada no calor da tarde
um frio suor nas noites de insónia.
nada existe
para lá da certeza exacta da distância
que em nós interiormente se afirma
no amargo sopro do desencanto.
nem a espera
a vida não tem margem que a pare
e as horas arrastam-se e correm
num mesmo tempo simultâneo.
só a esperança
que entra pelas frestas do desejo
de viver.

foto: Dionísio Leitão

publicado em Mulher dos 50 aos 60 em Agosto 2005

quinta-feira, setembro 29, 2011

Outono sem chuva



É Outono. E ainda não chove. Tenho esta imitação de folha em branco e os dedos tropeçam no teclado. De quem falo? Como querias ser lembrado? O dourado dos caracóis da criança, as impertinências do adolescente espigado, o homem, o pai, o artista... Haverá muitas coisas de ti que não conheci. Mas, agora que aqui não estás e já não te posso perguntar, não consigo que os meus dedos encontrem as palavras que te descrevem. Só inquietação. Minha, tua. Levaste contigo a paz que se encontra nas memórias de infância, nos risos antigos que ficam a ecoar nas casas. Ficaram as perguntas, os silêncios, os vazios que não serão preenchidos.

Inquietação. Estás em frente à janela, tenho a certeza. É Outono. E a chuva ainda não bateu nos vidros.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Entre o sonho e a realidade



Sentado no carro olho as luzes da cidade espalhadas pelas gotas de água que escorrem nos vidros.
Ligo o aquecimento, procuro uma estação de rádio. Música melancólica. Oceano Pacífico. Apropriado.
A noite vai ser longa e o dia foi cansativo.
"As noites longas do Oceano Pacífico".Dizem.
A música, o ruído de fundo da chuva e o cansaço levam-me para um espaço entre o sonho e a realidade.
Nele quero estar.
É nele que tu existes. Entre o sonho e a realidade.
Desde sempre foi aí que te encontrei.
Nele crescemos juntos, brincámos, nele nos amamos, nele vivemos como criaturas de luz que somos.
Sabemos que o tempo é curto. Apenas existe naqueles minutos entre a realidade e o sonho.
Sei que estás, como eu, nos outros espaços.
Mas neles não nos (re)conhecemos.
E ansiamos esse pequeno espaço de tempo em que, de facto, estamos vivos.
O tempo começa a esgotar-se. Luto contra o sono, luto contra o despertar.
Não quero a separação.
O barulho de pancadas fortes e um coro de buzinas sobressaltam-me:
Acorde, gritam-me de fora do carro, o sinal está verde, porra !
Você está a empatar o trânsito!

foto e texto de Dionísio Leitão


[adeus, meu irmão. a tua viagem na realidade terminou. resta agora a que sonhaste e em que esperamos encontrar-nos todos, um dia. ]