domingo, março 06, 2011

Domingo sem sinos

by mar de sonhos


Naquele domingo acordou com a memória dos sinos das manhãs antigas. Já não tocavam, escondidos algures entre camadas de vida vivida que se acumulavam. Sabia que isso não era sinal de que os sons, os cheiros, as cores, que faziam dos dias de outrora hinos à alegria de viver, já não existiam. Já não os sentia e o que se deixa de sentir raramente volta. Olhou a janela aberta para o mundo lá fora. O renascer da terra já estava no início. Era um pulsar de vida que entrava pela janela. Sem sinos, sem aromas inebriantes. Apenas a afirmação de que tudo se renovava, tudo se modificava, mas valia a pena ser experimentado. A certeza de que a vida era aquilo mesmo, um dia de cada vez, ainda que as manhãs não se enchessem do repicar dos sinos, nem as noites fossem cenários de fogo de artifício. Respirou o ar já meio doce, anúncio do aproximar da primavera. Uma dor subtil insinuou-se, lá muito no fundo dos pensamentos que se distendiam. Embalou-a naquela reflexão lúcida que se apoderava de si e soube que estava próximo o dia de renunciar. Talvez não fosse no dia nem no mês seguinte. Um dia de cada vez... Quando chegasse a hora, teria a mesma certeza que tinha agora, do eterno silêncio dos sinos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

para lá do Inverno

by Eskil Olsen


porque vês o inverno
na janela espelho em que te olhas
o mundo encolhe nas paredes frias
e a espada de gelo te penetra o peito
julgas que o sol é privilégio de outros
que descuidados ainda não passaram
as brancas montanhas para lá do tempo

mas o sol reside na ponta dos dedos
e arde intenso no toque da pele
afaga-te os olhos no sopro do vento
para lá do espelho real em que te vês
o sol é o eterno desejo de renascer.

domingo, janeiro 30, 2011

Nevoeiro

Do dia em que o nevoeiro caiu sobre aquela terra, nada constava nos anais da história nem na memória dos homens. Se uns diziam que tinha acontecido de repente, outros garantiam ser um acontecimento previsível. É sabido que quando o nevoeiro cobre o caminho dos homens, cada um vê coisas diferentes. Uns tacteavam a escuridão, num caminhar penoso sem qualquer rumo. Outros sonhavam melancolicamente e imaginavam estranhas formas feitas de bruma. Todos sabiam que havia quem quisesse cortar o nevoeiro à procura do sol. As crianças escutavam lendas sobre esse disco dourado e quente e campos cobertos de flores vermelhas. Os mais velhos falavam de alegria e felicidade, palavras antigas que os dicionários tinham esquecido. Na sombra das histórias contadas à noite, quando o nevoeiro se tornava mais insuportável, germinava pouco a pouco uma outra palavra já há muito esquecida: esperança. Também sabia a geração mais antiga que, quando a esperança se impõe no coração dos homens, é difícil impedir que eles lutem para a concretizar. Foi assim, de história em história, de lenda em lenda, que alguns iniciaram a caminhada para procurar o sol. Nos olhos dos outros, dos que não se aventuraram, ficou a espera. Os forasteiros que por ali passavam diziam que aquele era um povo parado numa esquina do tempo, vivendo o dia a dia sem ânimo, esperando, esperando... aquilo que ninguém sabia exactamente definir.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Apesar de tudo

Apesar de tudo... Da crise, do desânimo, das perspectivas que parecem piorar dia a dia, da pobreza que alastra... Apesar de tudo ou porque é mais necessário agora, desejo a quem aqui passar um 2011 de esperança. Vamos iniciá-lo de cabeça levantada. Olhando bem em frente para um futuro que desejamos melhor, embora conscientes do longo caminho para lá chegar.

Bom Ano para todos!