sábado, novembro 06, 2010

por vezes...


by Virginia Ateh
por vezes o dia amanhece lúcido
no colo da dor que se esconde
talvez apenas a urgência de fugir
para uma luz improvável
cálida alegria e íntimo fulgor
em mim a paz sem laços desfeitos
simples quietude do dia que nasce.

terça-feira, novembro 02, 2010

Adeus, Van Gogh


Não chegaste a fazer 17 anos. Adolescência na raça humana... Sei que a idade dos gatos se mede por outros calendários. Mas como se diz adeus a um companheiro de quase 17 anos?
Escolheste-me entre as pessoas da casa, talvez porque eramos parecidos: esquivos, desconfiados, agressivos por vezes e meigos até ao limite para as pessoas em quem acreditamos. Hoje só posso esperar que a tua vida entre nós tenha tido o amor e o conforto a que todos temos direito. E que descanses em paz, finalmente, após este terrível período de doença. Sentiremos, todos, a tua falta.

quinta-feira, outubro 28, 2010

pela essência



by Bruno Abreu

sei-te não pelos dias mas pelo sorriso
essa curvatura íntima dos lábios
tímidos trocistas no limite da húmida sede
sei-te não pelo tempo mas pelos olhos
jovens pássaros atrevidos na bruma da ternura
caminhantes sem rumo nas rugas do rosto
sei-te pela essência que procurei tocar
adivinhando momentos espalhados no tempo
pelos muitos dias de hoje
e eternas esperanças de amanhã.

domingo, outubro 24, 2010

abismos


by João Miguel Figueiredo

o dia acordou desorientado Filomena pensou no que já tinha perdido e agora voltava talvez naquela manhã lhe apetecesse envolver-se na bruma leve para lá da janela perguntava-se o que significava tudo aquilo a indiferença e as declarações dementes de quem parecia viver num labirinto mais complexo que o seu afinal agora quase já só olhava para trás por não querer prever o que a esperava ou aos outros um dia em que as mãos dela já não os alcançassem e o mundo já não fosse palpável os abismos sempre a tinham atraído não sabia como tinha conseguido fugir de alguns sem danos de maior isto era uma forma de dizer porque as feridas saram mas deixam cicatrizes e em manhãs como aquela doem de tal forma que tudo parece voltar ninguém quer reviver uma queda no abismo Filomena olhou a janela e viu que a bruma se afastava talvez aquele pequeno sol se mantivesse e pudesse olhar em frente até à curva da estrada sacudiu o manto de lembranças e saiu.