quinta-feira, outubro 21, 2010

puzzle


se existisses, saberias sem que te dissesse que hoje a vida é um puzzle cujas peças não encaixam. pedaços sem nexo chegam perto como se fosse possível agarrá-los, construir uma forma, um sentido. veio até mim um desses bocados de vida, viajante incerto de um tempo antigo. paira no ar, tentando fazer parte do puzzle. hesito estender a mão para sentir a sua realidade. sei que é frágil e em breve (se) partirá. pleno de difíceis contornos para construir uma imagem clara. o que consigo é algo deformado, irreal. breve, breve, tudo se distorce e corto a pele nas arestas restantes.
na verdade, não existes, aí no centro dos dias de puzzles e labirintos. pinto a imagem esquecendo as peças. em certos dias há que optar por soluções simples.

domingo, outubro 17, 2010

terra queimada

tantas são as sementeiras como as colheitas falhadas. em chão gretado, plantas secas que qualquer chama incendeia. feridas expostas, impudicas, na terra queimada em plena luz. escondem a vida, fundo segredo silencioso que aguarda o bálsamo improvável da chuva.

terça-feira, outubro 12, 2010

hoje não


by Slava Beilin

hoje não amor
os tons da terra mudam cada dia
nada permanece neste outono de incerteza
por isso hoje não
não fales do que não posso entender
há trilhos sem fim visível
labirintos sem fio que me guie
hoje não sim talvez
...e o medo
infinito arrepio de me perder

sexta-feira, outubro 08, 2010

Com chuva...


by Daniel Camacho

Com chuva abrande a velocidade. Um sensato slogan na estrada que dificilmente se vê, tal a cortina de água. Na verdade, com chuva tudo em mim abranda. Porque não a velocidade ? Enrolo-me, casulo envolto em silêncio molhado. Todos os ritmos são lentos, o sangue não aquece e cada movimento custa. A essência de mim está longínqua, num trilho sem destino. Devia ser como a terra que parece rejubilar. Agora já não sou terra, nem água, nem fogo. Não sinto. A chuva lava. E leva com ela toda a reacção possível. Positiva ou negativa. Dentro do casulo, sou neutra. Fria.
Um dia deixará de chover. Talvez o casulo abra e tudo volte ao normal. Aguardo, com a extrema lentidão das larvas, esperando transfiguração.