terça-feira, outubro 12, 2010

hoje não


by Slava Beilin

hoje não amor
os tons da terra mudam cada dia
nada permanece neste outono de incerteza
por isso hoje não
não fales do que não posso entender
há trilhos sem fim visível
labirintos sem fio que me guie
hoje não sim talvez
...e o medo
infinito arrepio de me perder

sexta-feira, outubro 08, 2010

Com chuva...


by Daniel Camacho

Com chuva abrande a velocidade. Um sensato slogan na estrada que dificilmente se vê, tal a cortina de água. Na verdade, com chuva tudo em mim abranda. Porque não a velocidade ? Enrolo-me, casulo envolto em silêncio molhado. Todos os ritmos são lentos, o sangue não aquece e cada movimento custa. A essência de mim está longínqua, num trilho sem destino. Devia ser como a terra que parece rejubilar. Agora já não sou terra, nem água, nem fogo. Não sinto. A chuva lava. E leva com ela toda a reacção possível. Positiva ou negativa. Dentro do casulo, sou neutra. Fria.
Um dia deixará de chover. Talvez o casulo abra e tudo volte ao normal. Aguardo, com a extrema lentidão das larvas, esperando transfiguração.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Terra, poiso, ninho

Lembrava-se por vezes do pássaro multicolor e, quanto a essa época da sua vida, muitas eram as interrogações. Não sabia já razões de chegada ou partida. O facto é que voara sobre ela e lhe deixara farrapos de cor e marcas indeléveis. Desse tempo, as memórias começavam a desvanecer-se mas o eco que restava do canto da ave levava-a aos dias em que lhe era poiso, ninho de repouso. Via-o voltar ao voo sem ressentimentos. Talvez as cores precisassem de se espalhar para terem o brilho original. Até que foi a era da partida, sem volta anunciada. Assim como chegara, voou para longe. Deixando-lhe todas as interrogações.
Todos os sentidos lhe diziam que, num tempo que já não sabia precisar, os seus olhos só viram cinza. Como se quisesse reter a sombra das asas do pássaro. Mas, como tudo o que tem que acontecer, outras cores foram reaparecendo. A vida coloriu-se em tons de melancolia longínqua com ligeiras aparições de outros brilhos. Só a música não voltou. Escutava, de olhos cerrados, os ecos distantes. Reconhecia-o, por vezes. Afastava o desejo de ser terra, poiso, ninho. Seguia o trilho contrário, aquele onde os penhascos não reflectiam cores e sons e não existiam pássaros multicolores.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Outono

by Gonçalo de Sousa Santos

tempo de Outono. um imprevisível vento indeciso surge entre a luz de verão. partilhamos a vida entre dias pálidos e carícias avaras de sol inconstante. pequenas gotas de água acariciam a pele, mais do que molham. esperamos os dias em que as folhas verdes se deixam cair em cores quentes, tranquilas. só depois virão as tempestades. fazemos, passo a passo, o caminho do Inverno.