sexta-feira, outubro 08, 2010

Com chuva...


by Daniel Camacho

Com chuva abrande a velocidade. Um sensato slogan na estrada que dificilmente se vê, tal a cortina de água. Na verdade, com chuva tudo em mim abranda. Porque não a velocidade ? Enrolo-me, casulo envolto em silêncio molhado. Todos os ritmos são lentos, o sangue não aquece e cada movimento custa. A essência de mim está longínqua, num trilho sem destino. Devia ser como a terra que parece rejubilar. Agora já não sou terra, nem água, nem fogo. Não sinto. A chuva lava. E leva com ela toda a reacção possível. Positiva ou negativa. Dentro do casulo, sou neutra. Fria.
Um dia deixará de chover. Talvez o casulo abra e tudo volte ao normal. Aguardo, com a extrema lentidão das larvas, esperando transfiguração.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Terra, poiso, ninho

Lembrava-se por vezes do pássaro multicolor e, quanto a essa época da sua vida, muitas eram as interrogações. Não sabia já razões de chegada ou partida. O facto é que voara sobre ela e lhe deixara farrapos de cor e marcas indeléveis. Desse tempo, as memórias começavam a desvanecer-se mas o eco que restava do canto da ave levava-a aos dias em que lhe era poiso, ninho de repouso. Via-o voltar ao voo sem ressentimentos. Talvez as cores precisassem de se espalhar para terem o brilho original. Até que foi a era da partida, sem volta anunciada. Assim como chegara, voou para longe. Deixando-lhe todas as interrogações.
Todos os sentidos lhe diziam que, num tempo que já não sabia precisar, os seus olhos só viram cinza. Como se quisesse reter a sombra das asas do pássaro. Mas, como tudo o que tem que acontecer, outras cores foram reaparecendo. A vida coloriu-se em tons de melancolia longínqua com ligeiras aparições de outros brilhos. Só a música não voltou. Escutava, de olhos cerrados, os ecos distantes. Reconhecia-o, por vezes. Afastava o desejo de ser terra, poiso, ninho. Seguia o trilho contrário, aquele onde os penhascos não reflectiam cores e sons e não existiam pássaros multicolores.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Outono

by Gonçalo de Sousa Santos

tempo de Outono. um imprevisível vento indeciso surge entre a luz de verão. partilhamos a vida entre dias pálidos e carícias avaras de sol inconstante. pequenas gotas de água acariciam a pele, mais do que molham. esperamos os dias em que as folhas verdes se deixam cair em cores quentes, tranquilas. só depois virão as tempestades. fazemos, passo a passo, o caminho do Inverno.

domingo, setembro 19, 2010

Nunca?


by ...............

Nunca. Sempre. Não dizia aquelas palavras. Não as pensava. Não as adoptava como suas. Pediram-lhe que dissesse “sempre”, ou que prometesse um qualquer “nunca”. Contornara a questão. Nada era para sempre, não existe a certeza de um nunca. Talvez por isso lhe chamavam esquiva, fechada em si como as ilhas rodeadas de bruma.
Esperava ser possível romper o bloqueio dessas palavras. Um dia sentiu que era possível dizer sempre , na situação mais improvável.. Disse-o com a mesma certeza com que se tinha negado a fazê-lo até aí. Sempre, apesar de todas as circunstâncias. Soou-lhe bem e ultrapassou dolorosos obstáculos porque assim tinha que ser. Sempre.
A lógica da vida mostrou-lhe que não há excepções às regras que sabia serem certas. Foi tão fácil desfazer aquele "sempre"... O único que tinha dito. Alguém soprou o sonho contido nele e, tal como uma bola de sabão, simplesmente desapareceu. O mundo voltou ao que não devia ter deixado de ser. Nunca.