domingo, setembro 19, 2010

Nunca?


by ...............

Nunca. Sempre. Não dizia aquelas palavras. Não as pensava. Não as adoptava como suas. Pediram-lhe que dissesse “sempre”, ou que prometesse um qualquer “nunca”. Contornara a questão. Nada era para sempre, não existe a certeza de um nunca. Talvez por isso lhe chamavam esquiva, fechada em si como as ilhas rodeadas de bruma.
Esperava ser possível romper o bloqueio dessas palavras. Um dia sentiu que era possível dizer sempre , na situação mais improvável.. Disse-o com a mesma certeza com que se tinha negado a fazê-lo até aí. Sempre, apesar de todas as circunstâncias. Soou-lhe bem e ultrapassou dolorosos obstáculos porque assim tinha que ser. Sempre.
A lógica da vida mostrou-lhe que não há excepções às regras que sabia serem certas. Foi tão fácil desfazer aquele "sempre"... O único que tinha dito. Alguém soprou o sonho contido nele e, tal como uma bola de sabão, simplesmente desapareceu. O mundo voltou ao que não devia ter deixado de ser. Nunca.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Um ponto, um porto


By Gennadi Blohin

São pequenos os passos, amarrados a um peso incerto. Existe um centro de gravidade, um ponto de equilíbrio. Perdido no horizonte rugoso e denso. Sem referências, o passo perdeu a leveza do voo. Arrasta-se, ave de asa partida. Até que algo se aplane, transpareça e se ilumine. Um ponto, um porto. Uma luz de alma. Um pequeno vórtice de alegria.

sexta-feira, setembro 03, 2010

O rio de marés


Tavira, rio Gilão


Agora que o Tejo é o rio que me preenche o olhar, já me falta o outro rio. Aquele rio de marés que sempre me emociona, no seu movimento suave. Enche e despeja devagar como se respirasse. Reflecte a cor dos barcos e o sabor do sal e do peixe que o percorre. É um rio e o seu fim, o seu abraço interminável com o mar.
Sobre o rio os homens construíram pontes. Em cada uma, a visão da cidade branca traz novidade, aquele detalhe ainda não observado. O dia é um jogo de gradações de luz, a noite é pura magia, uma brincadeira de namoro com a cidade iluminada.
Há muitos anos, conto tristezas e alegrias a este rio. De alguma forma, as águas tudo misturam no seu destino final. De alguma outra forma, sinto-me mais leve na certeza de compartilhar vivências com um amigo.
Agora que voltei da cidade, da ilha, trago o desejo das águas daquele rio e a certeza de que foi o destino de férias certo. Ali onde a vida se cria e se colhe, onde se faz magia do que o mar traz, ali onde o rio fala comigo enquanto as águas se renovam constantemente.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Que fazer com este grito?


Frida Khalo, "As duas Frida"

Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.

Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó.

Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.