sexta-feira, setembro 03, 2010

O rio de marés


Tavira, rio Gilão


Agora que o Tejo é o rio que me preenche o olhar, já me falta o outro rio. Aquele rio de marés que sempre me emociona, no seu movimento suave. Enche e despeja devagar como se respirasse. Reflecte a cor dos barcos e o sabor do sal e do peixe que o percorre. É um rio e o seu fim, o seu abraço interminável com o mar.
Sobre o rio os homens construíram pontes. Em cada uma, a visão da cidade branca traz novidade, aquele detalhe ainda não observado. O dia é um jogo de gradações de luz, a noite é pura magia, uma brincadeira de namoro com a cidade iluminada.
Há muitos anos, conto tristezas e alegrias a este rio. De alguma forma, as águas tudo misturam no seu destino final. De alguma outra forma, sinto-me mais leve na certeza de compartilhar vivências com um amigo.
Agora que voltei da cidade, da ilha, trago o desejo das águas daquele rio e a certeza de que foi o destino de férias certo. Ali onde a vida se cria e se colhe, onde se faz magia do que o mar traz, ali onde o rio fala comigo enquanto as águas se renovam constantemente.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Que fazer com este grito?


Frida Khalo, "As duas Frida"

Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.

Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó.

Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.

sexta-feira, agosto 06, 2010

abrigos destruídos

Já secaram os oásis
deste lado do deserto
até o gelo arde em brasa
labareda em noite escura
queimadura à flor da pele
calcinando as madrugadas.

Flor caída em solo árido
na margem de ocultos rios
porquê procurar a sombra
dos abrigos destruídos?

domingo, julho 25, 2010

Apanhando girassóis


Vou apanhando girassóis. Um de cada vez em movimentos de câmara lenta. Guardo assim o tempo de só olhar o dourado da flor. E o milagre do pólen transportado por seres alados. Esqueço a terra sob os pés e a lembrança da lama no chão gretado. Quero levar comigo a cor do sol em forma de flor. Ou talvez hoje eu queira apenas ser um girassol. Num lento movimento seguindo a luz até que a noite me cerre as pétalas.