segunda-feira, agosto 30, 2010

Que fazer com este grito?


Frida Khalo, "As duas Frida"

Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.

Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó.

Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.

sexta-feira, agosto 06, 2010

abrigos destruídos

Já secaram os oásis
deste lado do deserto
até o gelo arde em brasa
labareda em noite escura
queimadura à flor da pele
calcinando as madrugadas.

Flor caída em solo árido
na margem de ocultos rios
porquê procurar a sombra
dos abrigos destruídos?

domingo, julho 25, 2010

Apanhando girassóis


Vou apanhando girassóis. Um de cada vez em movimentos de câmara lenta. Guardo assim o tempo de só olhar o dourado da flor. E o milagre do pólen transportado por seres alados. Esqueço a terra sob os pés e a lembrança da lama no chão gretado. Quero levar comigo a cor do sol em forma de flor. Ou talvez hoje eu queira apenas ser um girassol. Num lento movimento seguindo a luz até que a noite me cerre as pétalas.

sábado, julho 17, 2010

Nesse dia

by silviafonso

Não foi nesse dia
Em que as palavras me deixaram nua
Entre farrapos de um cobertor rasgado
Que morri na tua pele
Ainda tenho nos pedaços da memória
O verso em que envolvi a negação da ausência
Apenas um início de poema esboço de palavra
Fio de água incompleto em urgência de mar.
Nesse dia chegou no vento agreste
O poder de palavras mil vezes repetidas
O sabor da terra espalhada na maré
Neles aninhei o trémulo corpo nu
E decidi não morrer na tua pele