sábado, julho 10, 2010

man at the mirror


by James Croak

O homem olhava o espelho. Rara nele, aquela contemplação. Não gostava do passar dos anos, ali visível. Naquele dia procurava a visão interior, o seu verdadeiro querer. Existia a realidade e o apelo sempre novo do que o levava mais longe. Pensou em como o chamava, a partida, a descoberta. O seguir em frente, abrindo asas, pairando sobre trilhos desconhecidos. Ele, só, ainda que em direcção à fantasia que o esperava. Empolgou-se perante a ideia. Mas logo um arrepio lhe trespassou o corpo, por entre o sol de verão que a janela deixava entrar. Os pilares do mundo construído não estariam lá, se voltasse. Construiria outros, talvez. Tecidos de poesia, rendilhados em emoções. Mas o arrepio persistia. Das pequenas pontes lançadas por aqui e por ali, o homem não se lembrou. Frágeis, tão frágeis… todas elas levantadas para uma qualquer finalidade de que já nem se lembrava. Essas ruiriam, claro. Não, dessas não se lembrou. Só as pisava quando por acaso o caminho para pequenas ilusões por ali passava.
Mas agora o homem pensava na grande ilusão. Precisava saber se a queria real. Esperava que o espelho lhe dissesse. Talvez tivesse que passar para o outro lado, como a menina do conto. Nesse dia o homem não gozou o sol, faltou a todas as obrigações de um dia. Um dia na vida, ao menos. Tentou, sem conseguir, livrar-se daquele arrepio. Imóvel, expectante, esperou, por um dia, a resposta do espelho.

quinta-feira, julho 01, 2010

tudo muda

como poderia não saber os atalhos onde rasgo as mãos frágeis como se a alma migrasse até à pele dos dedos? são caminhos que aprendi desde os tempos que não lembro, apenas por não querer. amnésia voluntária ou fuga da amargura que me tornaria demasiado atenta às cores silenciosas que trazem augúrios de escuridão. por isso, fujo dos atalhos conhecidos e tomo os caminhos planos. oiço as cores do sol, sabendo que o som é só um embuste. espero. tudo muda na terra dos homens. talvez um dia a melodia que cantam os raios de luz seja verdadeira música.

terça-feira, junho 22, 2010

Para ser outra


Nos dias em que me imaginam outra, talvez uma flor sem mérito, uma coisa pequena apanhada num chão de terra, me aplanasse o caminho para ser outra. Ou até um sonho, uma fantasia sem brilho, uma magia de circo barato. Seriam muitas as dádivas para essa ideia de ser alguém que por vezes sou, quando não preciso de fingir identidades. Dádivas rasas, humildes. Não preciso de grandiosidade para ser quem sou, ou finjo ser ou apenas aquela que procuro nos olhos que imagino espelho.

segunda-feira, junho 14, 2010

muito de leve

quero partir hoje
sem que os caminhos sintam passos
sobre as pedras paradas
sem um choro de pássaro
não haverá rasto dos pés
nas ervas húmidas da chuva de ontem
quero ir assim muito de leve
muito sem som, sem dó
sem que nada dentro de ti
o anuncie.