quinta-feira, julho 01, 2010

tudo muda

como poderia não saber os atalhos onde rasgo as mãos frágeis como se a alma migrasse até à pele dos dedos? são caminhos que aprendi desde os tempos que não lembro, apenas por não querer. amnésia voluntária ou fuga da amargura que me tornaria demasiado atenta às cores silenciosas que trazem augúrios de escuridão. por isso, fujo dos atalhos conhecidos e tomo os caminhos planos. oiço as cores do sol, sabendo que o som é só um embuste. espero. tudo muda na terra dos homens. talvez um dia a melodia que cantam os raios de luz seja verdadeira música.

terça-feira, junho 22, 2010

Para ser outra


Nos dias em que me imaginam outra, talvez uma flor sem mérito, uma coisa pequena apanhada num chão de terra, me aplanasse o caminho para ser outra. Ou até um sonho, uma fantasia sem brilho, uma magia de circo barato. Seriam muitas as dádivas para essa ideia de ser alguém que por vezes sou, quando não preciso de fingir identidades. Dádivas rasas, humildes. Não preciso de grandiosidade para ser quem sou, ou finjo ser ou apenas aquela que procuro nos olhos que imagino espelho.

segunda-feira, junho 14, 2010

muito de leve

quero partir hoje
sem que os caminhos sintam passos
sobre as pedras paradas
sem um choro de pássaro
não haverá rasto dos pés
nas ervas húmidas da chuva de ontem
quero ir assim muito de leve
muito sem som, sem dó
sem que nada dentro de ti
o anuncie.

domingo, fevereiro 14, 2010

a maior injustiça


by donnie mackay

é verão ou talvez natal. as memórias que tenho de ti são tantas que se confundem. és o menino de caracóis cor de noite ou a homem que quer entender o que há de novo no mundo. tanto te vejo no mar da minha ilha de sonho como na casa dos encontros, das refeições em conjunto e dos jogos de cartas. num segundo és o menino que abre as prendas de natal logo te tornas no revoltado com todas as injustiças. a maior foi a que a vida reservou para ti e te ofereceu sem que nenhum de nós quisesse vê-la chegar. os teus caracóis desvaneceram-se em nada e ainda os sinto na carícia da mão naquela cama de hospital. tiveste frio e tentei abrigar-te mas havia demasiados tubos, demasiada tecnologia a tentar puxar-te para o lado de cá. parte de ti já se preparava para a partida. não houve forças nem afectos nem lembranças dos dias de sol da infância que te prendessem. depois de tudo, é irónico que a terra continue a girar e nós com ela. estarás por aqui, porque continuo a ouvir a tua voz e a ver o teu rosto ao meu lado na cadeira agora vazia. para lá do desgosto, para lá da dor física da ausência, preciso acreditar que fazes parte desse movimento cósmico. para que a morte faça algum sentido na fluir da vida.



[Para o Pedro que partiu muito cedo e nos deixou sem consolo, neste girar do mundo ]