segunda-feira, junho 14, 2010

muito de leve

quero partir hoje
sem que os caminhos sintam passos
sobre as pedras paradas
sem um choro de pássaro
não haverá rasto dos pés
nas ervas húmidas da chuva de ontem
quero ir assim muito de leve
muito sem som, sem dó
sem que nada dentro de ti
o anuncie.

domingo, fevereiro 14, 2010

a maior injustiça


by donnie mackay

é verão ou talvez natal. as memórias que tenho de ti são tantas que se confundem. és o menino de caracóis cor de noite ou a homem que quer entender o que há de novo no mundo. tanto te vejo no mar da minha ilha de sonho como na casa dos encontros, das refeições em conjunto e dos jogos de cartas. num segundo és o menino que abre as prendas de natal logo te tornas no revoltado com todas as injustiças. a maior foi a que a vida reservou para ti e te ofereceu sem que nenhum de nós quisesse vê-la chegar. os teus caracóis desvaneceram-se em nada e ainda os sinto na carícia da mão naquela cama de hospital. tiveste frio e tentei abrigar-te mas havia demasiados tubos, demasiada tecnologia a tentar puxar-te para o lado de cá. parte de ti já se preparava para a partida. não houve forças nem afectos nem lembranças dos dias de sol da infância que te prendessem. depois de tudo, é irónico que a terra continue a girar e nós com ela. estarás por aqui, porque continuo a ouvir a tua voz e a ver o teu rosto ao meu lado na cadeira agora vazia. para lá do desgosto, para lá da dor física da ausência, preciso acreditar que fazes parte desse movimento cósmico. para que a morte faça algum sentido na fluir da vida.



[Para o Pedro que partiu muito cedo e nos deixou sem consolo, neste girar do mundo ]

sábado, janeiro 30, 2010

a vida, por tortuosas vias

cegos de não querer ver caminhamos no silêncio da casa pesado de augúrios. só os ponteiros do relógio se ouvem. o tempo, a espera. tacteamos os momentos e os risos de ontem. tentamos senti-los reais e palpáveis, possíveis de reviver. sem certezas, já sem espantos nem súplicas. esperamos apenas. um toque, uma voz. uma decisão de vida ou morte. quando a vida se afirma por tortuosas vias, nem o esgar dos lábios disfarça o que morreu. dentro de nós, no fundo dos olhos que se vão abrindo.

domingo, janeiro 10, 2010

gelo

by Harrier

gelada a extremidade dos dedos que não traça caminhos de fogo nem cria o desenho poético da palavra. cada gota de água penetra a terra, funde-se na lama dos sentidos. sem mais redenção o poema prende-se em estalactites de frio, pérola imóvel e sólida que nenhum rio acolherá. assim, como ninfa em casulo, o corpo é sangue e os dedos músculos que se alongam na procura do degelo.