sábado, dezembro 05, 2009

conversa

tenho este hábito de iniciar conversas como se da minha janela de chuva avistasse algum olhar cúmplice que me desse de volta as palavras perdidas algures entre horas de sufoco e outras de tédio que assim é feita a vida digo isto como se não soubesses mas a minha voz não serve para trazer nenhuma novidade são só pensamentos que correm em fio como a chuva de sentimentos molhados que se entranha na pele nos músculos até rasgar depois deixamos que tudo seque que tudo sare e olhamos de novo o sol aprendemos talvez tudo isto lentamente não somos feitos de massa moldável e só depois de algum tempo percebemos a vantagem de dobrar e não partir será a isso que chamamos sobrevivência se alguém soubesse seria senhor dos mistérios da vida sou mais de ciências exactas e gosto de explicar os mistérios sem domar os pensamentos só porque há coisas que não se explicam ainda existe em mim alguma rebeldia depois de tanto tempo talvez seja isso que me chama para lá da janela de chuva para lá da protecção claustrofóbica do vidro à conversa sem fim adivinhando olhares cúmplices.

domingo, novembro 15, 2009

outono


by Karel Sobota

já não escreves, disseste, como se o correr lúdico dos dedos à procura das palavras fosse mais uma cumplicidade ou só uma conta do colar de sentimentos que se vai acrescentando, tenho que dar voltas infindas no colar, deixá-lo fluido em volta do teu/meu pescoço, lassos laços estes das doces empatias, dos risos e da ternura, qual rio da nascente de um olhar para a foz do outro, será então assim e eu escrevo até que as palavras dancem na chuva e o vento as leve ao destino que não sei se têm, porque pairamos aqui neste outono onde o frio já se sente, são esses os arrepios dos meus dias de sol, melancolia inevitável em movimento sinusoidal, hoje as ondas fizeram a curva descendente, junto uma conta ao colar dos afectos e escrevo.

quarta-feira, outubro 28, 2009

do lento movimento das tartarugas



do lento movimento das tartarugas
que não apressam as horas eternas
da cíclica rota dos ponteiros do relógio
do voo das folhas ao ritmo das estações
do tempo, do implacável tempo
de tudo te diria hoje
não fora o dia lembrar
o que em mim está perene e vivo
dádiva guardada no caminho do olhar


foto by Mark Hamilton

segunda-feira, outubro 19, 2009

Mais uma vez



Mais uma vez bate na janela
Uma leve sombra de ouro
Cola-se na pele que arrefece
Um arrepio conhecido
Paira no vento um eco antigo
De velhos sentimentos
Uma outra vez o voo das folhas
Traz subtis murmúrios de frio
Talvez presságios de inverno
O Outono entardece no jardim
Ainda esta vez.