segunda-feira, agosto 10, 2009

era eu?


se o sol entrar pela vida sem pedir licença, como falarei sem estilhaçar o frágil cristal da memória? por vezes digo “lembras-te”, só porque queria que te lembrasses. sei que se vão apagando os pormenores, os locais já são só aguarelas sem forma. na verdade, as cores escorrem na tela deixando um borrão indecifrável. era eu ou outra de mim? tantas, tantas foram… tantas sou! ainda que não as reconheças. tento não destruir o que ficou gravado nas paredes transparentes que ecoam dentro de mim, sem (me) te ferir. mas ainda não estão maduros os sons simples da verdade. a urgência reside apenas na dúvida da estação certa.

domingo, agosto 02, 2009

Palavras estranhas

by Monica Iorio

As palavras custam-me. Empastam-se, enrolam-se nos dedos. Não digo que se prendem na boca. Nunca tentei dizê-las. Param no caminho entre a mente e as mãos que escrevem. O pensamento é demasiado complexo. Existe um poema incompleto que não se sabe dizer. De contradição em contradição procuro a unidade. A impossível unidade. E as palavras doem-me, fogem para alguma parte de mim que não alcanço. Estranhas como sons vazios de sentido. Falas de alguma personagem que inventei mas não conheço.


[De volta, lentamente e procurando as palavras...]

sábado, julho 11, 2009

estrada larga


by fresh water tank

sigamos então essa estrada plana
a casa de ontem já não tem calor de verão
corre um vento no pátio em voo de arrepio
que esfria o riso colado nas esquinas
caminhemos ainda assim
surge uma luz que tínhamos esquecido
nas margens de água em que buscamos vida
ou apenas sonho calor repouso manta
aberta cancela do jardim e estrada larga
fundo trilho destes dias
sem rótulo de partida ou de chegada


[Boas férias a quem passa. Perdoem a falta de assiduidade. Volto lá para Agosto]

domingo, julho 05, 2009

Pedra e ar


Por vezes sou a pedra virada para o mar. Imóvel, numa espera ardente. Outras, sou ar, a vibração inquieta, sem sossego. Numa constante procura de correntes favoráveis. Vento, quando chega o tempo da borrasca.
Sei os mundos secretos, paralelos que separam a pedra do ar solto que a rodeia. E tantas vezes os aproximam, como se o sólido e o etéreo fossem um só corpo. Uma só palavra. A que digo para ser ouvida. A que procura entendimento. A que, na imensidão da água ou na inquietação do vento, se perde, sem que dela reste o eco. Ou sequer o indefinível aroma chegue ao alvo desejado. E então sou só pedra. Que o ar escoa-se em caminhos cada vez mais estreitos.



Obrigada, Laura