sábado, julho 11, 2009

estrada larga


by fresh water tank

sigamos então essa estrada plana
a casa de ontem já não tem calor de verão
corre um vento no pátio em voo de arrepio
que esfria o riso colado nas esquinas
caminhemos ainda assim
surge uma luz que tínhamos esquecido
nas margens de água em que buscamos vida
ou apenas sonho calor repouso manta
aberta cancela do jardim e estrada larga
fundo trilho destes dias
sem rótulo de partida ou de chegada


[Boas férias a quem passa. Perdoem a falta de assiduidade. Volto lá para Agosto]

domingo, julho 05, 2009

Pedra e ar


Por vezes sou a pedra virada para o mar. Imóvel, numa espera ardente. Outras, sou ar, a vibração inquieta, sem sossego. Numa constante procura de correntes favoráveis. Vento, quando chega o tempo da borrasca.
Sei os mundos secretos, paralelos que separam a pedra do ar solto que a rodeia. E tantas vezes os aproximam, como se o sólido e o etéreo fossem um só corpo. Uma só palavra. A que digo para ser ouvida. A que procura entendimento. A que, na imensidão da água ou na inquietação do vento, se perde, sem que dela reste o eco. Ou sequer o indefinível aroma chegue ao alvo desejado. E então sou só pedra. Que o ar escoa-se em caminhos cada vez mais estreitos.



Obrigada, Laura

terça-feira, junho 30, 2009

cor mutável

by June Miller

Olho três vezes a imagem no espelho. Nunca idêntica. O que muda é a cor. Não a dos olhos, a dos cabelos ou da pele. A cor de mim. Já não procuro identidade. Camaleão adaptável num labirinto sem saída. Chocando com as paredes em tons de arco-íris. Rasgando a pele a cada mudança.

domingo, junho 21, 2009

A palavra solta



Não penso
Procuro
Percorro às avessas
O tempo obscuro
Envolvo o corpo
Nas pregas tecidas
De antigos minutos
Deslizo num túnel
De horas sofridas
Não paro
Recuo
Caminho na borda
Do sentir revolto
Da espiral inversa
E volto
Ao verso primeiro
À palavra solta
No espaço contido
Do eu verdadeiro.