domingo, julho 05, 2009

Pedra e ar


Por vezes sou a pedra virada para o mar. Imóvel, numa espera ardente. Outras, sou ar, a vibração inquieta, sem sossego. Numa constante procura de correntes favoráveis. Vento, quando chega o tempo da borrasca.
Sei os mundos secretos, paralelos que separam a pedra do ar solto que a rodeia. E tantas vezes os aproximam, como se o sólido e o etéreo fossem um só corpo. Uma só palavra. A que digo para ser ouvida. A que procura entendimento. A que, na imensidão da água ou na inquietação do vento, se perde, sem que dela reste o eco. Ou sequer o indefinível aroma chegue ao alvo desejado. E então sou só pedra. Que o ar escoa-se em caminhos cada vez mais estreitos.



Obrigada, Laura

terça-feira, junho 30, 2009

cor mutável

by June Miller

Olho três vezes a imagem no espelho. Nunca idêntica. O que muda é a cor. Não a dos olhos, a dos cabelos ou da pele. A cor de mim. Já não procuro identidade. Camaleão adaptável num labirinto sem saída. Chocando com as paredes em tons de arco-íris. Rasgando a pele a cada mudança.

domingo, junho 21, 2009

A palavra solta



Não penso
Procuro
Percorro às avessas
O tempo obscuro
Envolvo o corpo
Nas pregas tecidas
De antigos minutos
Deslizo num túnel
De horas sofridas
Não paro
Recuo
Caminho na borda
Do sentir revolto
Da espiral inversa
E volto
Ao verso primeiro
À palavra solta
No espaço contido
Do eu verdadeiro.

domingo, junho 14, 2009

nada rima com saudade



nada rima com saudade. são lentas as margens do tempo. ínvios caminhos ardem sob um sol inesperado. os pensamentos correm livres. não se amordaça o que foge dos trilhos e procura pontes sobre rios intranquilos. quando a chuva penetra a terra, nascem flores entre as pedras. o barro molhado faz brilhar os olhos andarilhos onde inscrevo os meus versos. e ainda assim, nada rima com saudade.