sábado, maio 09, 2009

depois veio a chuva



foto by yein

depois veio a chuva. nesse dia a ternura era palpável na humidade da brisa. vertigem diluída na hesitação do ar perdido em mornos arrepios. como em todos os dias assim, acolheu a água que lhe escorria nos braços. riu-se da leveza dos pés molhados nas sandálias. e não pensou. entregou-se ao murmúrio dos sentidos. sons. cores. aromas. a terra molhada. o chamamento. simplesmente não pensou. dissera-lhe o tempo, muitos dias antes daquele, que a razão corrompe momentos perfeitos.

segunda-feira, maio 04, 2009

Doce Maio




Doce Maio de dias iluminados. Mês suave no nome que canta na língua, nas carícias do sol que desperta a pele ao toque. Maio é a afirmação de uma promessa que por vezes cintila em Abril. Maio quer-se feminino, fértil, grávido de esperança. Talvez não este Maio que, indiferente aos tropeços do mundo, se dá em flores, como sempre. Afirmação de que a vida aí está, apesar de… Então que floresça Maio, que cresça em plenitude. E que a vida se afirme em explosão, apesar de…

quarta-feira, abril 29, 2009

Estamos mesmo a precisar...



Estou cansada, mesmo. Do trabalho, da politiquice (nem é política, na verdade), da crise, da gripe. Então deixem que vos ofereça algo que se passou na linda Centraal Station de Antuérpia, mas que gostava de ver em espaços públicos de Portugal. Tragam a alegria e a esperança para a rua... estamos todos a precisar!

quinta-feira, abril 23, 2009

Densidade




Falemos então de densidade. Segundo o dicionário:

1. Qualidade de denso; espessura.
2. Relação entre a massa ou o peso de um corpo com o seu volume ou com a massa ou peso de outro corpo do mesmo volume.
3. Fotogr. Grau de opacidade de uma imagem em papel ou filme.


Talvez fossem demasiado densas, a ansiedade inicial e a alegria que se seguiu. Talvez nada pudesse medir a espessura daquele vermelho infinito. Vermelho de esperança, de afirmação, de certezas improváveis.
Talvez os corpos se sentissem leves, como se a densidade tivesse baixado subitamente. E pudessem dançar, soltar-se de amarras longas…
Talvez até o grau de opacidade das imagens que restaram só realçasse os cravos na manhã de cinza.

Talvez… tudo isto aconteceu há muito tempo e hoje tenho a sensação duma explosão, intensa, densa… e breve.


[ A palavra do PPP era “densidade”. E a minha foto seria esta, qualquer que fosse a palavra. Porque, a este Abril longínquo, todas as palavras se aplicam. ]

sábado, abril 18, 2009

naquele dia



talvez o mundo tivesse caído naquele dia. o seu mundo, pelo menos - não brinques, Filomena, não rias - e porque riria? não havia pessoas eternas, afinal. não, não havia, porque a avó (já bis, já avó do pai) estava lá dentro tapada com o lençol - Filomena, fica no quarto! - mas tinha que espreitar. porque não se mexia? não falava? nem os olhos se prendiam nos dela. húmidos de ternura - não chores minha menina. minha menina - e agora ia ser a menina de quem? tinham pressa que crescesse. dez anos, perdidos entre adultos - Filomena, estás a sonhar? - estava. tanta vez. agora os sonhos esbarravam naquilo. no que julgava não poder acontecer - ai, esta rapariga no que andará a pensar? - em nada, mãe. em nada, pai. só os porquês. os porquês que seguiriam com ela toda a vida. não havia pessoas eternas. também eles. um dia. pai, mãe. e o frio, o susto, a angústia. talvez sim. talvez o mundo tivesse desabado naquele dia.

terça-feira, abril 14, 2009

Páscoa de vento e sal



Páscoa de vento e sal. Entre o sol e a chuva. Dias caprichosos, na busca da tranquilidade que se tem tornado escassa. E o tempo, de tanta incerteza… Chuva que não chega a lavar, sol que não dá para aquecer. O vento, sempre presente, traz o aroma do mar, forte. Aguçando o desejo de dias suaves. Uma espera inquieta, sem data para terminar.

quarta-feira, abril 08, 2009

Páscoa




Páscoa. Passagem da morte para a vida, pelo sacrifício. Renascer. Ressurreição para os cristãos. "Pessach" judaica, passagem da escravidão para a libertação. Através, também, de um sacrifício, o dos primogénitos do Egipto. Renascimento da natureza, após o sacrifício necessário da sua morte invernal. Assim era nos tempos antigos. Assim é hoje, quando, sem saber, repetimos os rituais. Os fofos coelhinhos e os saborosos ovos. Símbolos de fertilidade. Renascer, sempre. Refazer o ciclo. Recomeçar.

[Escrevi isto há uns tempos. Mas mantem-se o que queria dizer. Para todos, uma Boa Páscoa cheia daquelas coisas doces que, não sendo de comer, alimentam a felicidade.]

sexta-feira, abril 03, 2009

Múltipla



Múltiplas cores
Duma paleta arbitrária
Múltiplos sons
Procurando a sinfonia
Partes de um todo espalhado
Nos recantos de viver
Múltipla
Sem chegar à unidade
Manta de gastos retalhos
Remendados dia a dia
Múltipla
Diversa mas tão igual
Na procura inquieta
Da luz que ilumina o voo
Da água do sol do sal
[da vida]

quinta-feira, março 26, 2009

nem um rumor se insinua


by Marcin Klepacki

nem um rumor se insinua
na insuportável tensão das paredes
mudas testemunhas do fio das horas
só um leve raio de sol
acaricia lento a soleira da porta
e a esperança que se espreguiça
no regaço côncavo das mãos

sábado, março 21, 2009

Hoje vi a poesia


...na vela do barco que convida à aventura


...na beleza da mulher que carrega a esperança no ventre


[Hoje, Dia Mundial da Poesia, andei por aí a procurá-la. Porque as palavras escasseiam.]

terça-feira, março 17, 2009

Cristal frio

by peta jones


As madrugadas estão prenhes
De implacável lucidez
No seu ventre adejam pássaros
De agoiro
Sem rótulo de bom ou mau
Só certezas de coisas por vir
Até ao dia em que se abatem
Na poeira que contemplo
Essa será a hora da limpidez
Do cristal frio de que me escondo
Com medo que me cegue

Preparo-me devagar
Para enfrentar o espelho
De alma sem maquilhagem


[Sem tempo para escrever nem para vos visitar, relembro palavras antigas. Um beijo para quem aqui passa.]

quinta-feira, março 12, 2009

Mil anos passados


Disseste
Mil anos passados e aqui estamos
O aroma e a luz, os mesmos, exactos
Os olhos que se penetram
E a voz de murmúrio para dizer
Coisas guardadas no fundo de nós
Ou a gargalhada que se liberta
Num só momento único cúmplice
Mil anos passados
Lembrei-te eu
Somos os mesmos que ontem se foram
Aqui, no sítio de sempre
Que, de encanto, tem o que lhe damos
Mil anos passados
O tempo não é corcel que nos transporta
Em louca correria
Mas breve passagem não percebida
Como se fosse ontem.

Esquecemos a história daqueles tempos
Que não o foram dentro de nós
Iguais
E mil anos passados…

domingo, março 08, 2009

Praga - just have a look




Até sempre, cidade onde a alegria de viver anda de mãos dadas com a arte e a história.

sábado, fevereiro 21, 2009

hoje só quero



...um tempo feito de manhãs ensolaradas em que o silêncio se alonga na preguiça dos gatos. um tempo sem tempo que se afunda em pequenos confortos e doces palavras sussurradas. horas compridas adivinhadas pela luz coada da janela. um tempo suave em que o corpo flutua como se tudo estivesse bem no mundo.


[um tempo de preguiçar. volto lá para a segunda semana de Março. bom descanso para todos, se for o caso ]

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Místico



by zabaa

A infinitude do silêncio colava-se-lhe ao corpo. Caminhava lento, passando as mãos nas formas que o sincelo conseguia urdir nas árvores. A casa era mais um eremitério onde a única preciosidade vinha da luz que entrava a qualquer hora. Havia nele uma aura de misticismo que, no princípio, os outros veneravam. Tocavam-lhe como se lhes pudesse dar o pão da vida. Ou como se dele jorrasse unguento para as dores da alma. Comprovado que não fazia milagres, passaram a olhá-lo com comiseração. Por fim, devia ofendê-los pela diferença, tal a aleivosia com que, em cada dia, o humilhavam. Quando partiu, as árvores choraram, em cada jóia de gelo derretida.


[Brincando com as palavras. Texto do 8º Jogo das 12 palavras]

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Obrigada, JPD, pelo prémio e pela presença amiga.

sábado, fevereiro 14, 2009

Porque hoje é Dia dos Namorados


by angelicatas

Na palavra desarmante
me encontras presa
oscilante
entre a manhã que adivinho
e a noite que anuncias.
E é na orla dos dias
desse difícil caminho
que te chamo amor
amante
lançando a voz sobre o fio
dessa lâmina de mágoa.
Vê que no leito do rio
que o teu olhar alcança
o meu corpo é a água.


[Palavras escritas há uns tempos. Um poema para adoçar o dia]

sábado, fevereiro 07, 2009

o que devia estar perto



traz o ar um prenúncio
ou talvez um sussurro
pronunciado
pressentido
vem no vento a incerteza
do que devia estar perto
aberto
cavalga a pura brisa
um áspero sopro de secura
as ondas que me atingem o peito
convocam lembranças revoltas
nas mãos tenho só a brancura do sal
líquido sabor que as molha gota a gota



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Obrigada, Maria Dias. Este prémio é para todos os que aqui passam.


quarta-feira, fevereiro 04, 2009

vento



o vento não leva consigo o silêncio
só amplia o grito que nele existe
no verde inquieto da copa das árvores

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Particularidades

Fui desafiada pelo Herético a expor aqui, em público, algumas das minhas particularidades. Isto não é fácil, acreditem. Porque não tenho grandes particularidades confessáveis. Mas há sempre pequenas coisas que nos revelam. Ora aí vai:


1 – Sou uma confessa adepta do Benfica. Já fui fanática, agora sou só… sofredora. Mas afinal não somos 6 milhões :)?
2 – Gosto de gatos, de gatos e de gatos… Não tenho nada contra os cães, mas cá em casa vivem dois gatos. Pronto, são manias.
3 – Não sou capaz de ler um romance sem ir ver o fim. Estraga o prazer da leitura? Agora cá… aguça a vontade de perceber como se chega lá.
4 – Adoro fotografar e detesto que me fotografem. A falar verdade, as fotos minhas de que gosto foram tiradas por mim. Coisas…
5 – Gosto da chuva de Verão que limpa e refresca. Ou das grandes chuvadas a que se segue o sol. Detesto a chuva miúda e insistente, assim como a que tem caído nestes últimos tempos. Espero que passe depressa.
6 – Gosto de viajar e, cliché dos clichés, Paris é a minha cidade do coração. Vou procurando outras que talvez a igualem. Mas a viagem que mais me encheu de beleza os olhos e a alma foi, mesmo, aos Açores. Uma paixão.


Bom, não doeu. Vai ser mais difícil passar o desafio a seis pessoas de entre os que aqui passam. Acreditem que não é por mal, bem pelo contrário. Gostava de saber particularidades de:










sábado, janeiro 31, 2009

hibernação



nada rompe o silêncio que tomou conta dos dias
nem o sono implícito das árvores
os que hibernam mantêm a dormência
que nenhum grito consegue quebrar

alguns estão atentos aos sinais mais ténues
seguram nas mãos a leve chama verde
trémulo calor de esperança
que aquece as palavras do poema.