
agora não me largues a mão. caio em espiral por todos os dias pintados numa cinzenta cortina de água. vórtice sem fim. a chuva da infância deixava poças nos campos. obrigava às galochas de borracha . e à raiva de ter que as usar. lembras-te? não, tu não estavas lá e nem sei se usaste galochas de borracha. e, se me lembro bem, também não estavas quando a água caía gelada e em mim já havia um calor púbere. ou serias tu com outro rosto. jovem, jovem, como se pode ser tão jovem? alguma vez foste tão jovem? e o vórtice que me arrasta. pequenos guarda-chuva, pequenas galochas com bonecos, beijos e sorrisos. também não eras tu. nunca foste ou foste sempre? agora já deixo que o vórtice me leve. não quero parar. ou talvez sim. algures em frente ao mar. lá fora a cortina de água adensa-se em tempestade. e nós isolados. nós? não tu. ficaríamos ali e um dia alguém nos encontraria. sonhos, sonhos. alguma vez sonhaste assim? deixo que a espiral me puxe para mais próximo do momento em que começou a ser o teu rosto. as múltiplas faces de ti. e a chuva em dias de natal próximo. com cânticos dos pedintes para lá da janela. e nós, finalmente nós. estou a chegar. sei que a espiral da memória me vai atirar para aqui onde a água bate nos vidros. agora não me largues a mão. de ti já vi todos os rostos escondidos por trás do véu de água.