domingo, dezembro 07, 2008

onde se esconde o sol?



há vultos molhados de melancolia
no recorte brilhante das luzes
de pretenso calor
o fim do dia baixa a cortina
no horizonte da cidade
tudo se questiona nesta hora
de claros desencontros
e esperas sem esperança
por certo a luz virá num dia novo
mas quem sabe onde se esconde o sol?

quarta-feira, dezembro 03, 2008

de.gelo


by K.I.M.R.Y


fechei os olhos para ver
a cor dos sons que pairam
sobre a pele fria
do corpo.
há neles um incêndio inquieto
chama hesitante
onde as mãos degelam
a capa branca
da solidão.

domingo, novembro 30, 2008

vórtice



agora não me largues a mão. caio em espiral por todos os dias pintados numa cinzenta cortina de água. vórtice sem fim. a chuva da infância deixava poças nos campos. obrigava às galochas de borracha . e à raiva de ter que as usar. lembras-te? não, tu não estavas lá e nem sei se usaste galochas de borracha. e, se me lembro bem, também não estavas quando a água caía gelada e em mim já havia um calor púbere. ou serias tu com outro rosto. jovem, jovem, como se pode ser tão jovem? alguma vez foste tão jovem? e o vórtice que me arrasta. pequenos guarda-chuva, pequenas galochas com bonecos, beijos e sorrisos. também não eras tu. nunca foste ou foste sempre? agora já deixo que o vórtice me leve. não quero parar. ou talvez sim. algures em frente ao mar. lá fora a cortina de água adensa-se em tempestade. e nós isolados. nós? não tu. ficaríamos ali e um dia alguém nos encontraria. sonhos, sonhos. alguma vez sonhaste assim? deixo que a espiral me puxe para mais próximo do momento em que começou a ser o teu rosto. as múltiplas faces de ti. e a chuva em dias de natal próximo. com cânticos dos pedintes para lá da janela. e nós, finalmente nós. estou a chegar. sei que a espiral da memória me vai atirar para aqui onde a água bate nos vidros. agora não me largues a mão. de ti já vi todos os rostos escondidos por trás do véu de água.

quarta-feira, novembro 26, 2008

lonjura




que dizer desta lonjura
que se me espalha nos olhos
como névoa sem levante?
que falar deste torpor
que as tardes em si carregam
e sobre mim se depõe?

guardo as palavras restantes
no claro cristal da memória
esperando o raiar do sol.