quarta-feira, novembro 19, 2008

Marta Maria Mulher




by Vermeer, Christ in the house of Martha and Mary

“Martha, Martha, you are worried and distracted by many things. There is need of only one thing. Mary has chosen the better part, which will not be taken away from her”.’

Fala de Jesus na casa de Marta e Maria

A acreditar no que a Bíblia nos diz, só há necessidade de uma coisa. A fé e o amor incondicional. A escolha de Maria que acreditou, confiou cegamente e se dedicou exclusivamente à adoração e bem-estar daquele que amava.
Sempre me senti a viajar entre Marta e Maria. Sem que isto tenha algo a ver com crença religiosa. Marta é a acção necessária, a dúvida sistemática, o olhar virado para o mundo material. Maria é a confiança cega, a adoração, a total entrega a um amor (divino ou não). Marta desconfia de milagres, a não ser os que ela própria consegue. Maria crê cegamente nos milagres do Jesus que adora.

Como seriam, no mundo de hoje, Marta e Maria? Não sei sequer se este louco mundo permite a existência de tais estereótipos. Em proporções diversas, temos todas algo de Marta e algo de Maria. Agimos, trabalhamos, duvidamos e amamos na mesma medida. A vida divide-se em tantos compartimentos, as solicitações são tantas que damos de nós x de Marta e y de Maria, em cada caso. Para encontrarmos um qualquer z, solução das situações por que passamos. Mas como nos sentimos mais, quando estamos sós, perante o nosso espelho interior? Eu não consigo deixar de me sentir, apenas, Marta Maria Mulher.

sábado, novembro 15, 2008

ténue


sinto-me ténue
miragem indiferente
nuvem de vapor criada
pelo toque do sol quente
na pele do asfalto molhada

quarta-feira, novembro 12, 2008

no crer de te querer


é valsa volteio
roda que rodeia
mar de marear
tango que me tange
corda que acorda
ecos recuados
som fora do sono
jeito de enjeitar
ritos já sem grito
no crer de te querer

segunda-feira, novembro 10, 2008

Memória



Não sei se é o cheiro da casa ou o frio que a entranha por desabitada, sozinha. Uma casa de vozes ecos de tanto tempo atrás que já nem sei se os confundo. Talvez as tias avós já não se separem na memória e a bisavó não vestisse sempre de negro. Dela sei os últimos dias naquela cama grande e o sussurrar dos outros no corredor. E eu pequena demais naquele canto da casa. A pensar que era tudo exagero dos outros, as bisavós não desaparecem, não morrem (o que era a morte naquele tempo?). Um desaparecimento, um ir embora. Mais tarde, quando uma das tias avós (qual delas, agora já tudo é nebuloso) “desapareceu”, já sabia o que era a morte. Tinha-a visto nos olhos dela, dias atrás. Sorriu e despediu-se com a morte nos olhos. E eu rapariga, já mais que adolescente, sem surpresa quando me disseram: a tia morreu.
Nesta casa aparecem-me assim estas confusas memórias e sou sempre pequena a um canto, fugindo das lágrimas da mãe que nunca ali conseguiu paz para viver. Só depois, só quando abandonámos a casa. E ela foi ficando assim desabitada, sozinha. Já nem o pai, já nem ele para nos ligar ao cheiro da casa, para nos levar lá nos Natais como se ali fosse o nosso lugar raiz. Não sei se alguma vez foi, para mim, raiz. Já nem o pai. Terei também visto a morte nos olhos dele? Antes um adeus. E não quis acreditar. Não quis. E depois só me lembro das crianças, tão pequenas elas também, pelos cantos de outras casas. Tão pequenas que a menina que se encolhia dentro de mim precisou crescer. Esta casa traz-me sempre confusas memórias. E outras, claras e lúcidas. Demasiado nítidas.