quarta-feira, outubro 10, 2007

A hora da água




A minha hora é a da água. Líquida, solta em pequenos regatos ou caudalosos leitos. Por nascimento. Sou água de Março (saúdo-te Elis!). Respiro na hora do ar, aquela em que tudo se revela límpido e claro. Ardo nas horas de fogo em que em que a paixão se revela essencial à vida. E misturo-me com a terra quando é tempo de procurar a força que nela se contém. Mas vivo nos líquidos sentimentos que molham corpo e alma. Na fúria de escavar o caminho ou na doce calmaria dos territórios a que chamo meus. E procuro o azul infinito. O do mar. Definitivo. Vivo na hora da água.

domingo, outubro 07, 2007

Entre a alma e o corpo




Fecho a janela do pátio inventado
Preciso ficar no escuro agora
Por entre as coisas que guardam o silêncio
Ásperas ao tacto
Nos dedos só resta a memória
Do que ainda viaja entre a alma e o corpo
Habituo os olhos à ausência de miragens
Para me iluminar de realidade
Assim será o recuar da escuridão
Sem arco-íris
Luz velada de dias quietos

quinta-feira, outubro 04, 2007

a (re)invenção da linguagem




... e chega um tempo em que procuramos as palavras certas. as que não digam demais. as que não prolonguem a distância. reinventamos a linguagem, como se fosse possível dizer o mesmo, sem o dizer. tacteamos reacções a cada frase sem conseguir adivinhar quais são os termos proibidos. nessa incerteza de palavras erradas, não atingimos a comunicação. vagueamos entre ideias e a sua expressão. sem que o que dizemos seja o que queremos dizer. talvez os códigos desta linguagem reinventada venham a ser perceptíveis para quem os escuta. pela necessidade de um novo entendimento.




Foto by B Berenika

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Hoje, lá no outro lado, há um bocado de vaidade...

domingo, setembro 30, 2007

A canção da chuva




A chuva tem um poder. Leva-nos, em viagens interiores, a lugares adormecidos nos dias de sol. Descobrimos veredas sombrias. Ou caminhos largos de amor à vida. Potencia o que em nós está dormente. Por dentro. Acentua a dor, dá asas à alegria. Tanto nos apetece deixá-la escorrer pelo corpo dançante como protegermo-nos num casulo sem abertura. A chuva cai. É o que dizemos. A chuva entranha-se. Na terra e em nós. Tal como arrasta terras e lama, revolve sentimentos. Perguntamos. Perguntamo-nos. Sobre a vida. Sobre nós. Por vezes não queremos resposta. Talvez só a que vem da canção que soa nos vidros. Murmura-nos palavras de tristeza. Conforto. Purificação. A chuva é imprevisível.