quarta-feira, agosto 15, 2007

Palavras presas




As palavras presas. Nem um som as articula. Conversas cruzadas iguais. Cansaço das tardes. Sobretudo das tardes. E tudo o que já não será dito. O tempo que foge. As horas que se arrastam. Os corredores vazios. A inquietação. Nenhum dia se repete. Nenhuma palavra será recuperada. Liberta. Outras serão ditas. Diferentes. Nenhuma palavra é igual. Cada uma se perde com o olhar que a diria.

domingo, agosto 12, 2007

A casa escondida




E havia aquela casa escondida. Um mundo de mistérios e interrogações. Um labirinto não visível a quem passava ao longe. Só perto. Muito perto. Com os anos a casa tinha-se misturado com o meio. Abraçava as árvores e o mato que a rodeavam. Deixava entrar o sol que nunca a desvendava por inteiro mas lhe iluminava os dias. Só ele a tornava visível. Parcialmente. No interior a sombra aninhava os segredos por conhecer. Quem se aproximava julgava vê-la. Uma casa sem nada de especial. Não sabiam o seu interior. Escondido.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Verde azul




não sou o meu sonho. verde azul. da cor dos olhos dos pastores que tocam flauta. e das princesas que choram. não entram na minha história reis tiranos. nem belas encostas de prados verdes. ou vales profundos onde as lágrimas caem. na terra que piso não brotam flores azuis rosa brancas. nem a água ferve. no desvendar de mistérios inquietantes. e as gentes não se sentam a olhar o mar. durante horas. como se lhes escutasse os segredos. sou de terras castanho verde prosaico. de uma paleta limitada. onde as lendas são de castelos e mouros. e heróis da cristandade. terras de gente de outras cores. olhei o meu sonho. nos olhos tinha água verde azul. encontrei a inquietação da beleza perfeita. a angústia de não poder lançar o voo sobre a paisagem. a impossibilidade de a guardar. em mim. verde azul.




Foto: S. Miguel, Açores, Lagoa das Sete Cidades

domingo, agosto 05, 2007

amanhecer




lembras-te daquele fio invisível que nos ligava nas horas de solidão? eu julgava saber de ti e tu de mim como se a distância fosse só uma metáfora. e o caminho para encontrar o outro estivesse ao alcance de um fechar de olhos. para ver por dentro. era então o fio que nos unia para lá de toda a saudade. amanheci no escuro da noite. dizia-me o pesadelo que o fio se tinha partido. e eu às voltas. tonta. de não encontrar o caminho para ti. e era escuro. como se todas as luzes estivessem escondidas na bruma. talvez tenha arranhado o corpo. as mãos. não sei. a alma. em vão. a luta. as brumas. o sal molhado. acordei do pesadelo quando fechei os olhos. para ver por dentro. o fio estava suspenso. mas firme. vi-te.