
No limite seco do caule
A folha virada para o céu
Nem uma sombra projecta

Pés descalços. Pedia-lhe a areia, suplicava-lhe a espuma das ondas. Mas a mente não obedecia. Algo lhe dizia que não eram os pés, não era o corpo que devia desnudar. Precisava despir-se de muito mais para absorver toda aquela luz. Precisava tirar de si tudo o que pudesse tapar a transparência do azul. Docemente, como quem se entrega a um amante, despiu a alma e lançou-a na imensidão de água. Sem um traço de lama, sem um véu de tristeza. Nua.

E assim se juntam os dias na corrente do tempo. Por vezes dizemos: “Já aqui estive. Já aqui fui eu, sem mim. Já aqui me perdi". São esses os dias brancos, a que não pomos nome porque não os queremos recordar. Mas encontram o seu caminho nos meandros da memória. E conseguem acordar a lembrança de outros dias, a colorir os dias brancos. Somos assim, balançamos entre o que chamamos cor e o que a reflecte ou a absorve. Branco e negro. Luz e trevas. Salpicados da cor de muitos dias.