sexta-feira, abril 20, 2007

Thinking blogger






O Sérgio que, para mim, é um poeta que trabalha com a câmara fotográfica em vez da palavra (então e aqueles títulos das fotografias?), achou que o meu blog o faz pensar. A Lena Maltez, que me maravilha com cada poema que escreve, também.
A Manuela que, Palavra puxa palavra , me levou a pegar na câmara e tentar fazer uma “espécie de fotos” achou que o Vemos, ouvimos e lemos também é um blog que faz pensar.

É curioso que, sendo isto apenas mais uma cadeia da blogoesfera, fazer pensar é uma razão muito gratificante para ser “nomeada”. Quando escrevo, seja pura ficção ou reflexo límpido de mim, gosto de ser lida e de sentir que quem está do lado de lá pensa no que leu. Valha-nos essa capacidade de pensar e tentar entender o que o outro diz…
Assim e agradecendo, do coração, ao Sérgio, à Lena e à Manuela, o facto de pensarem sobre as palavras que por aqui e por lá surgem, sigo as regras da cadeia e passo-a a estes blogs que, por diferentes razões, estão entre os que me fazem pensar:


De pernas para o ar – pela sensibilidade, pela contagiante loucura.

O sítio do poema – mas é preciso justificar? Poemas de vida transformada em beleza pura.

Owls 2 – porque ela faz crónicas, ela escolhe música, vídeos, fotos, poemas… e tudo com qualidade. Como consegue?

Meia_Praia – ela sempre me fez pensar. E faz perguntas terríveis… :)

Terra, mar e horizontes – pela sensibilidade desarmante dos seus poemas.


Para todos, um beijo e a certeza que os leio com muita atenção.



Foto by Kamila W.

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P.S.: para continuar a cadeia, devem copiar o símbolo do prémio, pô-lo no vosso blog e nomear outros cinco. Se quiserem, claro...

quarta-feira, abril 18, 2007

Poema de mim...




Ah, se soubesse fazer um poema
De métrica incerta
Sem rima, sem tema
Palavras sentidas, sabidas
Rentes à terra vermelha da alma
Poema cristal comigo espelhada
Um jorro de versos no dia real
Grito de vida em letras rasgadas
Ah, se soubesse
Gravar nas palavras aquilo que sinto
Dizer o que calo e, calando, minto
No verbo encarnar horas que vivi
Das mãos abertas faria brotar
Um poema único de mim para ti.


Foto by Marina Jerkovic

domingo, abril 15, 2007

Da cor dos malmequeres





Sabem de que cor são os malmequeres? Brancos, amarelos, as duas coisas? Respostas prosaicas. Os malmequeres são cor de primavera. Esta é uma resposta poética.
Também a água não é bem água. Talvez seja um fio de prata ou um líquido caudal. Ou qualquer outra coisa. As cores não são bem as que vemos, mas as de alguma improvável paleta. E sobretudo a dor não é dor. Chamemos-lhe o que quisermos, mas não lhe chamemos dor. Nem tristeza, nem solidão. Nem sequer a tão desejada felicidade. Recorramos a todas as figuras de estilo. Sublimemos. Sobretudo, sublimemos. Façamos um enorme silêncio sobre a vida real, deixemos a poesia dizer do mundo inventado onde, ao de leve, só ao de leve, pairam os nossos sentimentos.
Será para isto que serve a poesia? E será que a poesia tem que servir para alguma coisa? Não para mim, não hoje, sobretudo.
Mas nem sei como vim parar aqui. Hoje eu só queria saber de que cor são realmente os malmequeres. Os verdadeiros que existem nos campos e se sentem nas mãos quando os colhemos. Nos campos reais, da terra real onde cresce a verdadeira vida.




Fevereiro 2006

quinta-feira, abril 12, 2007

O espectáculo continua



Óleo sobre tela de Júlia Calçada


Trazia a alma dorida nas pontas dos pés. Em cada músculo o sangue latejava, o coração batia, como se o único sentimento conhecido fosse o cansaço. Cada movimento, cada decisão rasgava o cetim, rasgava-lhe a pele. Queria parar ali, não ouvir nem mais um compasso da música e atirar para longe as sapatilhas, admitir que aquele espectáculo não era o seu.
Os acordes entraram-lhe no ouvido e tudo no seu corpo se rendeu, se submeteu. A dor retirou-se lá para bem fundo, para onde já nem a conseguia sentir. Ergueu-se no cetim sujo das sapatilhas de tantos momentos inesquecíveis e viu-as brilhar. Os pés seguiram a alma que dançava ao som da música envolvente, sedutora. Deixou-se ir, voou, viveu o momento daquela dança. O espectáculo tinha que continuar.




[Para responder ao desafio da Maria, que agradeço, sensibilizada]