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quarta-feira, março 28, 2012

Longe de todos os sonhos



by Irving Rusinow


Longe de todos os sonhos. Dia de enxurradas sem chuva. Pó, apenas. Agarrado ao chão, nem sequer dançante na revolução do vento. Assim hoje e todos os dias deste tempo indeciso. Tudo entranhou a cor da terra seca. Infecunda na amargura de se despedir do amanhã. Seria assim no sempre que lhe restava? Talvez a inquietação, sim. A dúvida acordada. Um olhar longo para lá do pó. Tímida sobrevivência. A espera.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Suave rio




Hoje precisava de inspiração e as palavras fogem-me escorregadias. Nada fica no ecran, nada do que queria dizer e deixar marcado. Exactamente hoje. Deixo apenas aquilo que o cansaço não mata, o que está tão dentro de mim que escorre dos dedos, mesmo involuntariamente. Hoje é apenas o dia de deixar transbordar o suave rio da ternura.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Apesar de tudo

Apesar de tudo... Da crise, do desânimo, das perspectivas que parecem piorar dia a dia, da pobreza que alastra... Apesar de tudo ou porque é mais necessário agora, desejo a quem aqui passar um 2011 de esperança. Vamos iniciá-lo de cabeça levantada. Olhando bem em frente para um futuro que desejamos melhor, embora conscientes do longo caminho para lá chegar.

Bom Ano para todos!

domingo, outubro 17, 2010

terra queimada

tantas são as sementeiras como as colheitas falhadas. em chão gretado, plantas secas que qualquer chama incendeia. feridas expostas, impudicas, na terra queimada em plena luz. escondem a vida, fundo segredo silencioso que aguarda o bálsamo improvável da chuva.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Outono

by Gonçalo de Sousa Santos

tempo de Outono. um imprevisível vento indeciso surge entre a luz de verão. partilhamos a vida entre dias pálidos e carícias avaras de sol inconstante. pequenas gotas de água acariciam a pele, mais do que molham. esperamos os dias em que as folhas verdes se deixam cair em cores quentes, tranquilas. só depois virão as tempestades. fazemos, passo a passo, o caminho do Inverno.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Um ponto, um porto


By Gennadi Blohin

São pequenos os passos, amarrados a um peso incerto. Existe um centro de gravidade, um ponto de equilíbrio. Perdido no horizonte rugoso e denso. Sem referências, o passo perdeu a leveza do voo. Arrasta-se, ave de asa partida. Até que algo se aplane, transpareça e se ilumine. Um ponto, um porto. Uma luz de alma. Um pequeno vórtice de alegria.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Que fazer com este grito?


Frida Khalo, "As duas Frida"

Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.

Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó.

Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.

domingo, julho 25, 2010

Apanhando girassóis


Vou apanhando girassóis. Um de cada vez em movimentos de câmara lenta. Guardo assim o tempo de só olhar o dourado da flor. E o milagre do pólen transportado por seres alados. Esqueço a terra sob os pés e a lembrança da lama no chão gretado. Quero levar comigo a cor do sol em forma de flor. Ou talvez hoje eu queira apenas ser um girassol. Num lento movimento seguindo a luz até que a noite me cerre as pétalas.

quinta-feira, julho 01, 2010

tudo muda

como poderia não saber os atalhos onde rasgo as mãos frágeis como se a alma migrasse até à pele dos dedos? são caminhos que aprendi desde os tempos que não lembro, apenas por não querer. amnésia voluntária ou fuga da amargura que me tornaria demasiado atenta às cores silenciosas que trazem augúrios de escuridão. por isso, fujo dos atalhos conhecidos e tomo os caminhos planos. oiço as cores do sol, sabendo que o som é só um embuste. espero. tudo muda na terra dos homens. talvez um dia a melodia que cantam os raios de luz seja verdadeira música.

terça-feira, junho 22, 2010

Para ser outra


Nos dias em que me imaginam outra, talvez uma flor sem mérito, uma coisa pequena apanhada num chão de terra, me aplanasse o caminho para ser outra. Ou até um sonho, uma fantasia sem brilho, uma magia de circo barato. Seriam muitas as dádivas para essa ideia de ser alguém que por vezes sou, quando não preciso de fingir identidades. Dádivas rasas, humildes. Não preciso de grandiosidade para ser quem sou, ou finjo ser ou apenas aquela que procuro nos olhos que imagino espelho.

sábado, janeiro 30, 2010

a vida, por tortuosas vias

cegos de não querer ver caminhamos no silêncio da casa pesado de augúrios. só os ponteiros do relógio se ouvem. o tempo, a espera. tacteamos os momentos e os risos de ontem. tentamos senti-los reais e palpáveis, possíveis de reviver. sem certezas, já sem espantos nem súplicas. esperamos apenas. um toque, uma voz. uma decisão de vida ou morte. quando a vida se afirma por tortuosas vias, nem o esgar dos lábios disfarça o que morreu. dentro de nós, no fundo dos olhos que se vão abrindo.

domingo, janeiro 10, 2010

gelo

by Harrier

gelada a extremidade dos dedos que não traça caminhos de fogo nem cria o desenho poético da palavra. cada gota de água penetra a terra, funde-se na lama dos sentidos. sem mais redenção o poema prende-se em estalactites de frio, pérola imóvel e sólida que nenhum rio acolherá. assim, como ninfa em casulo, o corpo é sangue e os dedos músculos que se alongam na procura do degelo.

domingo, janeiro 03, 2010

o cinza do terceiro dia

by Ruip
os vidros turvam-se quase líquidos sem cor outra que o cinza. a chuva ensopa os restos que jazem nas ruas indícios de festas que já foram. espalha pela cidade o cheiro ambíguo da purificação. limpos de ilusões entramos no terceiro dia do novo ciclo cientes da semelhança do cinza com o que já conhecemos. afirma-se em nós a eterna interrogação da origem colorida da esperança.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Palavras de entender o mundo

by Safak Tortu


Nas manhãs deste tempo, deixo entrar a brisa que faz cantar as árvores. Acordo sonhos adormecidos à míngua de estrelas. Longínquo há um vago som de água. Falarão outra vez as fontes que quebravam o morno dos dias? Para captar o murmúrio, calo o pensamento e deixo os sentidos vaguearem ao encontro das palavras de entender o mundo. Só de olhos fechados sinto o sabor de as misturar lentamente como se pintasse uma tela de um branco suplicante. Espalho a cor das palavras, devagar, devagar…

domingo, agosto 02, 2009

Palavras estranhas

by Monica Iorio

As palavras custam-me. Empastam-se, enrolam-se nos dedos. Não digo que se prendem na boca. Nunca tentei dizê-las. Param no caminho entre a mente e as mãos que escrevem. O pensamento é demasiado complexo. Existe um poema incompleto que não se sabe dizer. De contradição em contradição procuro a unidade. A impossível unidade. E as palavras doem-me, fogem para alguma parte de mim que não alcanço. Estranhas como sons vazios de sentido. Falas de alguma personagem que inventei mas não conheço.


[De volta, lentamente e procurando as palavras...]

terça-feira, junho 30, 2009

cor mutável

by June Miller

Olho três vezes a imagem no espelho. Nunca idêntica. O que muda é a cor. Não a dos olhos, a dos cabelos ou da pele. A cor de mim. Já não procuro identidade. Camaleão adaptável num labirinto sem saída. Chocando com as paredes em tons de arco-íris. Rasgando a pele a cada mudança.

domingo, junho 14, 2009

nada rima com saudade



nada rima com saudade. são lentas as margens do tempo. ínvios caminhos ardem sob um sol inesperado. os pensamentos correm livres. não se amordaça o que foge dos trilhos e procura pontes sobre rios intranquilos. quando a chuva penetra a terra, nascem flores entre as pedras. o barro molhado faz brilhar os olhos andarilhos onde inscrevo os meus versos. e ainda assim, nada rima com saudade.

sábado, maio 16, 2009

Escarpa


Ergue-se a escarpa no caminho da vida
sem retorno
sem escada
ou vereda que a aplane.
Só pela escalada no ar cristalino
se alcança a visão de novos caminhos
no horizonte escondido.


[O meu tempo para partilhar com todos vós é cada vez mais curto. Socorro-me de palavras antigas. Que todos façam bem a escalada das suas escarpas!]

segunda-feira, maio 04, 2009

Doce Maio




Doce Maio de dias iluminados. Mês suave no nome que canta na língua, nas carícias do sol que desperta a pele ao toque. Maio é a afirmação de uma promessa que por vezes cintila em Abril. Maio quer-se feminino, fértil, grávido de esperança. Talvez não este Maio que, indiferente aos tropeços do mundo, se dá em flores, como sempre. Afirmação de que a vida aí está, apesar de… Então que floresça Maio, que cresça em plenitude. E que a vida se afirme em explosão, apesar de…

terça-feira, abril 14, 2009

Páscoa de vento e sal



Páscoa de vento e sal. Entre o sol e a chuva. Dias caprichosos, na busca da tranquilidade que se tem tornado escassa. E o tempo, de tanta incerteza… Chuva que não chega a lavar, sol que não dá para aquecer. O vento, sempre presente, traz o aroma do mar, forte. Aguçando o desejo de dias suaves. Uma espera inquieta, sem data para terminar.